Coração devastado
Há notícias que devastam o nosso coração. Recebi uma delas neste domingo, quando soube da morte de minha amiga Jullis Ribeiro. Talentosa redatora publicitária e jornalista aqui de Londrina, Jullis sucumbiu vitimada por um aneurisma, deixando sua amada filhinha de apenas dois anos. Em nossa limitada capacidade de compreensão, a morte de uma jovem de 35 anos pode parecer um absurdo inexplicável — mas não para quem tem fé. Tenho plena convicção de que minha amiga está agora sendo recebida com todas as honras na Cidade de Deus descrita por Santo Agostinho. No entanto, a história de Jullis e seu legado continuarão sendo escritos aqui na Cidade dos Homens.

Para quem se chocou com a história do menino Adilson — salvo em 1977 pelo sargento Sílvio Hollenbach e preso na sexta-feira passada por desvios na Postalis —, é alentador saber que esse não foi o único desdobramento na tragédia do fosso das ariranhas. Silvio Delmar Hollenbach Júnior, filho do sargento herói, era um menino de 7 anos quando o pai morreu. Ele cresceu, estudou, formou-se na universidade e hoje é um dedicado médico que ajuda a salvar vidas como seu pai. Sempre que ele consegue a cura de uma criança, vem-lhe à mente o exemplo do pai, que se jogou no fosso das ariranhas para salvar o menino Adilson. O livre-arbítrio é um presente de Deus: depende de cada um nós a maneira como vamos usá-lo — ou, em outros termos, a forma que pretendemos para a nossa própria alma.

A morte de minha amiga fez-me pensar em duas reflexões de escritores que admiro muito. A primeira está no livro "Em Busca de Sentido — Um Psicólogo no Campo de Concentração", de Viktor Frankl. Ao ser transferido de Auschwitz para Dachau — dois campos da morte nazistas —, Frankl espia pela fresta do vagão lotado que divide com outros prisioneiros, enquanto o trem passa por Viena, sua cidade natal. No sacolejar do trem, ele vê ao longe o beco em que passou a infância: "Enxergava as ruas, praças e casas da minha infância, da minha terra natal, — era um sentimento bem nítido —como se eu já tivesse morrido, como um morto olhando do além, um fantasma a contemplar esta cidade de aspecto fantasmagórico."

Numa entrevista a Philip Roth, o escritor Isaac Bashevis Singer afirma: "Quando morre uma pessoa que é próxima de você, ela se distancia; com o passar do tempo, ela se torna mais próxima. Depois de muitos anos, chega um momento em que você está quase vivendo com ela. Foi o que aconteceu comigo. A Polônia está mais próxima de mim agora do que estava na época da minha juventude".

Singer e Frankl sobreviveram a grandes sofrimentos e à morte de seus entes mais queridos. Tiveram seus corações devastados. Porém, seguiram em frente e realizaram obras admiráveis. "Em Busca de Sentido" foi um dos livros de psicologia mais vendidos de todos os tempos. Em 1978, Issac B. Singer foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura. Um dia, a filha de Jullis, cujo coraçãozinho agora sofre, viverá o momento da glória e se lembrará com amor e orgulho da mãe que partiu tão cedo.

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