AVENIDA PARANÁ
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 10 de junho de 2016
por Paulo Briguet 
Por que Fidel não está preso?
Nesta semana fui almoçar com meu mais novo amigo de infância no Hotel Bourbon, onde fomos servidos pelo garçom João, o que sempre é uma honra. Não pude dar um abraço no Sr. Roberto Vezozzo, pois ele tinha viajado para visitar os netinhos, mas cumprimentei sua filha Fabiane.
Durante a conversa com meu amigo, lembrei-me de um episódio vivenciado ali mesmo no Bourbon há 17 anos. Em 1999, o ex-ditador chileno Augusto Pinochet estava preso em Londres, acusado dos crimes de genocídio e terrorismo. A ordem de prisão contra Pinochet fora expedida pelo juiz espanhol Baltasar Garzón. Um amigo esquerdista aliás, uma excelente pessoa, por quem tenho muito respeito até hoje disse-me que estava em Londrina, naquele dias, um advogado argentino que assessorava Garzón no caso de Pinochet. Mais do que depressa, marquei uma entrevista com o tal advogado. Rumei da FOLHA para o Bourbon, munido de meu gravador e meu portunhol. Furo de reportagem e pau no Pinochet isso era o sonho de qualquer jornalista militante!
O advogado usava óculos. Cumprimentou-me com gentileza (certamente estava informado das minhas credenciais esquerdistas da época). Como o meu espanhol era tão bom quanto o português dele, nosso mútuo entendimento linguístico foi razoável. Fiz-lhe várias perguntas sobre Pinochet e Garzón. Quando já estávamos concluindo, aconteceu o inesperado. Formulei uma pergunta sobre Fidel Castro.
Aqui, um esclarecimento. Mesmo durante minha fase militante, jamais engoli o ditador cubano. Sempre o achei meio farsesco, militar de opereta, e nunca tive paciência para seus longos discursos. Some-se a isso uma certa índole de repórter que me obrigava a fazer pelo menos uma pergunta embaraçosa para meus entrevistados. Traduzida para o português, a pergunta era a seguinte:
Alguns comentaristas conservadores defendem que Fidel Castro também deveria ser preso por crimes contra a humanidade. O que o sr. teria a dizer sobre isso?
Então veio o olhar do advogado. Ele baixou os óculos por cima do nariz e por um momento me fuzilou com os olhos. Havia muito ódio naquele olhar, mas não apenas. Havia também surpresa, despeito, orgulho, nervosismo e perplexidade. Durou apenas alguns segundos, antes de ele iniciar uma resposta-padrão. Mas o seu pensamento era nítido: "Como esse moleque ousa falar em prender Fidel?!"
Depois daquela entrevista, descobri muitas e muitas informações sobre Fidel Castro. Aos que desejam ter uma visão mais realista sobre a revolução cubana, recomendo três livros: "Mea Cuba", de Guillermo Cabrera Infante; "Antes que anoiteça", de Reinaldo Arenas; e "Nossos Anos Verde-Oliva", de Roberto Ampuero.
Nunca esquecerei aquele olhar.
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