A linha do céu de Londrina
De minha janela posso ver o recorte de prédios da cidade, que os fotógrafos chamam de skyline — a linha do céu. Às vezes, fico pensando no esforço e no engenho necessários para colocar todas essas moradas em pé. Quanto suor, quantos cálculos matemáticos, quanta perícia! Pessoalmente não sou capaz de erguer uma simples parede, mas agradeço todos os dias o trabalho que milhares de irmãos desconhecidos tiveram para que a nossa vida se tornasse protegida.
Se pensarmos bem, a linha do céu de Londrina se parece um pouco com o gráfico das batidas de um coração ou com as ondas de um concerto musical. Sempre que olho para a cidade, sinto que ela reproduz a música do meu coração. É por isso que escrevo assim, com ele nas mãos, como se a minha própria vida dependesse da linha do céu. E depende.
No lugar do prédio onde moro, havia no passado uma serraria que pertenceu ao casal Rodolfo e Cesira Massaro. Muitas casas da cidade devem ter móveis, portas e até paredes construídas com a madeira daqui. No silêncio da noite, imagino que as tábuas cortadas e aplainadas pelo sr. Massaro ainda vivem na rotina de milhares de pessoas. Chego a escutar o som longínquo de uma serra e de uma plaina oriundos da memória; então, penso que o trabalho da família Massaro não foi em vão — e agradeço mais uma vez.
Sou vizinho do santuário onde descansa o corpo de Madre Leônia, a santa da minha rua. Ali ao lado também existem uma creche, uma escola e um asilo — lugares em que a bondade humana serve aos pobres, desamparados e esquecidos. As vigas de madeira da antiga serraria ajudaram a colocar em pé essas moradas da misericórdia, onde o começo e o fim da vida recebem cuidado e atenção.
Todas as noites, quando fechamos os olhos para descansar, estamos dormindo sobre esse leito de trabalho e fé. Nunca é demais lembrar que Jesus, aprendiz de carpinteiro, trabalhava com madeira até os 30 anos, sob a orientação de José. Juntos, eles devem ter construído muitos leitos, portas e até casas. No Evangelho, a palavra grega que define a profissão de José é "tekton". Trata-se de um termo mais abrangente do que carpinteiro, podendo significar também construtor e mestre de obras. Isso indica que José, em sua oficina, não se limitava a produzir objetos de madeira, mas também construía casas em Nazaré e Cafarnaum.
Os edifícios de Londrina guardam uma semelhança fundamental com as perobas, árvores centenárias e hoje quase extintas que tanta madeira forneceram à cidade, em um sacrifício inesquecível. Prédios e perobas são como braços erguidos em direção ao céu. As perobas estão morrendo porque só conseguem sobreviver quando há vegetação ao redor; dizendo de outra maneira, perobas morrem de solidão. Elas nos ensinam que o segredo da eternidade é uma linha que nos unifica, nos redime e nos salva — a linha das moradas que um dia vão se encontrar no céu.

mockup