O primeiro chimarrão a gente não esquece
Dia desses fui iniciado no consumo da bebida-símbolo da cultura gauchesca. O responsável pelo meu batismo de mate foi o advogado Elizandro Pellin, ex-presidente da OAB Londrina e há mais de dez anos apresentador do programa "Sons do Minuano", na rádio universitária local.
Confesso que sou um ignorante das coisas gaúchas. Paulistano de certidão, pé-vermelho de coração, só recentemente comecei a ler o épico "O Tempo e o Vento", de Erico Verissimo. No primeiro volume da epopeia, "O Continente", já fui arrebatado pela força de personagens como Ana Terra, Capitão Rodrigo Cambará e o enigmático Pedro Missioneiro, cuja divisa "Rosa Mística" – um dos nomes de Nossa Senhora – continua a ecoar pelos meus ouvidos. Eis os sons do minuano, amigo Elizandro.
É bem verdade que já havia tido contato com autores gaúchos como Carlos Nejar, Mário Quintana e Moacyr Scliar, mas estes, embora talentosos, não representam a alma gaúcha tal como fazia Erico Verissimo. Já prometi a Elizandro finalizar "O Tempo e o Vento" ainda este ano, assim teremos assunto de sobra para conversar em sua chácara na cidade de Santo Antônio do Sudoeste, um dos enclaves gaúchos no Paraná. Mais uma prova de o Rio Grande do Sul não é um estado da federação, é um estado de espírito.
Por falar em Paraná, Elizandro me conta que o chimarrão foi inventado em nossa terra. Quando as tropas castelhanas passavam pelo antigo Sertão Del Guayrá (hoje Paraná), sentiam muitas saudades de casa e, frequentemente, tomavam porres homéricos para afugentar a tristeza. Na hora da ressaca, percebiam que um excelente revigorador era o mate bebido pelos indígenas – erva cujo nome científico é Ilex paraguariensis. E assim nasceu o costume logo adotado pelos povos que formaram a cultura gauchesca.
Sobre a mesa de Elizandro, um volume de Jorge Luis Borges e um LP intitulado "Yo sé quien soy" (Eu sei quem sou). A frase que dá título ao disco é clássica. Quem a disse primeiramente foi o cavaleiro enlouquecido Dom Quixote de La Mancha. Depois, no célebre poema "Elogio da Sombra", em que Borges fala sobre sua progressiva cegueira, lê-se com emoção o último verso: "Pronto sabré quien soy" (Em breve saberei quem sou).
Meu amigo Elizandro sabe muito bem que é, como o demonstram as imagens da família na parede do escritório: o tataravô, o bisavô, o avô, o pai, ele mesmo e o filho Lorenzo. Se há algo que merece respeito, principalmente nos dias de hoje, é esse olhar amoroso e reverencial para as próprias raízes e sementes.
Esse foi apenas o meu primeiro chimarrão – espero que venham muitos outros. Finalizo com o poema de Glaucus Saraiva, lido pelo próprio Elizandro, diante da imagem de seus antepassados e sob o céu avassalador de Londrina: "Amargo doce que eu sorvo/ Num beijo em lábios de prata./ Tens o perfume da mata/ Molhada pelo sereno. / E a cuia, seio moreno, / Que passa de mão em mão/ Traduz, no meu chimarrão, / Em sua simplicidade, / A velha hospitalidade/ Da gente do meu rincão".

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