Filhos de nossos filhos
Sempre que me levanto de madrugada e vou até o quarto do Pedro para saber se tudo está bem, faço a mesma oração a Nossa Senhora: — Mãe, cuida do meu filho assim como cuidaste do menino Jesus!

Por mais que procuremos as palavras, não é possível definir ou mensurar o que é a perda de um filho. Nós, católicos que rezamos o terço, costumamos meditar nas segundas-feiras sobre os chamados mistérios da alegria (ou mistérios gozosos): a anunciação, a visitação, o nascimento de Jesus, a apresentação no Templo e a perda e reencontro de Jesus em Jerusalém. Na última segunda-feira, no entanto, mudei o hábito e meditei sobre os mistérios da dor: a agonia no Getsêmani, a flagelação, a coroação de espinhos, a subida do Calvário e a morte na cruz.

Assim que termino de meditar nos mistérios dolorosos, recebo a notícia de que morreram em trágico acidente a filha e o genro de um querido amigo, o professor Marcos Rambalducci. O desastre — colisão entre o carro do casal e um caminhão desgovernado — ocorreu numa estrada por onde passamos, numa viagem familiar, há menos de uma semana, em Guaratuba. Não há como fugir da conclusão: poderíamos ter sido nós.

Rambalducci é amplamente respeitado nos meios acadêmicos, jornalísticos e empresariais de nossa cidade e região. Economista capaz de conciliar excelência técnica e clareza de raciocínio, presta enormes serviços à população do Norte do Paraná, com análises inteligentes, precisas e, quando necessário, ousadas. Sua filha Priscila trilhava os mesmos caminhos e se destacava como professora da PUC-PR. No brilhantismo, seguia também os passos da mãe, Ana Stawski.

Priscila despediu-se da vida aos 31 anos. Ao abraçar meu amigo Marcos, ouvi não palavras de revolta e desespero, mas de gratidão: "Deus me permitiu conviver com ela por 31 anos!" Marcos recordou que Priscila nasceu durante um inverno rigoroso, em julho de 1984, e que durante seis meses carregou-a junto ao peito para protegê-la do frio. Um pai herói.

Quando penso no professor Marcos Rambalducci, penso em alguém que nunca me disse um não, por mais difíceis que fossem meus pedidos. A sua vida sempre foi um "sim" constante, com aquela disposição em ajudar e doar-se aos outros que caracteriza o homem de bem. Neste triste carnaval, a vida disse um não ao homem que sempre diz sim. E é nosso dever, como amigos e companheiros de trabalho, cuidar para que a sua dor tenha alguma consolação.

No Canto XXXIII da Divina Comédia, uma das passagens mais belas da literatura universal, Dante Alighieri saúda Nossa Senhora com as seguintes palavras, que não me canso de ler nunca: "Ó Virgem mãe, ó filha de teu Filho, mais alta e humilde que qualquer criatura, dos eternos desígnios termo e brilho!" O poeta, mais uma vez, estava certo. A exemplo da Mãe de Jesus, de algum modo somos filhos de nossos filhos, pois eles nos definem e perpetuam. Paz, meu amigo.

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