E o assalto continua...
Considerando o nome desta coluna e o endereço da notícia, eu não poderia deixar de mencionar hoje, terça-feira que de gorda não tem nada, o fechamento da agência bancária que foi palco do famoso assalto em 10 de dezembro de 1987, dia do aniversário de Londrina.
O assalto à agência do Banestado criou uma comoção nacional e foi transmitido ao vivo para todo o Brasil. A tragicomédia, que se estendeu por mais de sete horas, acabou sendo tema de um livro do nosso mais importante escritor, Domingos Pellegrini: "Assalto à Brasileira". Uma obra literária que faz lembrar o filme "Um dia de cão", de Sidney Lumet, e o célebre relato "A sangue frio", de Truman Capote.
Aquele assalto teve um simbolismo político muito forte. O país vivia a ressaca do Plano Cruzado; Sarney havia prometido acabar com a inflação e fracassara vergonhosamente. O dinheiro do povo, para usar uma precisa imagem de meu amigo Valter Orsi, tornava-se como um cubo de gelo ao sol do meio-dia: seu valor era menor a cada minuto. Quase trinta anos depois, é triste saber que a inflação está de volta, trazida pela política econômica do PT.
Um dos assaltantes, apelidado de Moreno, procurou utilizar esse sentimento de revolta para conquistar a simpatia da população. De certa forma, conseguiu. Mas acabou preso, como todos os integrantes da quadrilha, exceto o misterioso líder, conhecido pela alcunha de Barba. Esse fugiu.
Em 1997, eu era repórter da FOLHA e fiz uma reportagem especial sobre os dez anos do assalto. Minha primeira providência foi ler o livro do Pellegrini. Em seguida, entrevistei personagens importantes como um querido e saudoso amigo, o repórter Paulo Ubiratan; o advogado criminalista Hamilton Laertes de Araújo; o taxista do Bosque que transportou Moreno antes do assalto; um artista plástico que estava fazendo exposição na agência; e uma bancária que apareceu ao vivo na TV e com isso reatou o noivado. Todos estiveram entre os 300 reféns daquele dia de cão. Tentei entrevistar Moreno, à época preso na PEL, mas ele não aceitou.
Ubiratan relatou com detalhes a sua corajosa participação como refém, jornalista e negociador ao mesmo tempo. A certa altura, um dos assaltantes ameaçou interromper as negociações enquanto a polícia não retirasse um franco-atirador que estava no prédio vizinho, com uma potente bazuca. Logo Ubiratan esclareceu: não era policial, era o então repórter fotográfico da FOLHA Milton Dória. E a bazuca não passava de uma câmera com lente objetiva.
Agora a agência do Banestado, que depois foi privatizado e virou Itaú, não existe mais. Hoje o Barba que está às voltas com a polícia é outro. Mas o assalto aos brasileiros continua — e nós somos os reféns. Como dizia o Paulo Ubiratan ao final de seu programa de rádio: "Trabalhador, trabalhadora: pense nisso!"

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