Avenida Paraná Atualizado em 18/02/2016, 13:52
Avenida Paraná
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segunda-feira, 08 de fevereiro de 2016
por Paulo Briguet 
1. A coisa mais difícil hoje em dia é encontrar alguém que goste de carnaval. A maioria das pessoas simplesmente acha um absurdo parar o país por cinco dias em nome de uma festa que ninguém mais quer. Vamos ser sinceros: a suposta "maior festa popular brasileira" atualmente se restringe a meia dúzia de cidades e a nossa não está entre elas. Com todo respeito aos meus amigos foliões (e eles ainda existem), digo sem medo de errar: o carnaval acabou. O último bloco já se desfez há muito tempo.
2. O compositor Camille Saint-Saëns (1835-1921) escreveu uma peça musical muito interessante chamada "Le Carnaval des Animaux" (em português, O Carnaval dos Animais). Como queria ser considerado um músico "sério", Saint-Saëns não permitiu que a obra fosse divulgada enquanto ele ainda vivia. A pronúncia do nome na peça, em francês, corresponde ao título desta coluna: O carnaval desanimou. Isto é, perdeu a alma. (Enquanto escrevo agora, ouço a música de Saint-Saëns: é muito boa!)
3. Escrevo carnaval em letra minúscula porque, em quase todos os lugares, é uma festa que não tem mais vida própria. Os feriados temporais costumam ser assim: em determinado momento da história, perdem o sentido. Um dia não comemoraremos mais a proclamação da república, porque entenderemos que não passou de um golpe de estado. Não foi assim com o 31 de março?
4. Os únicos feriados (do latim "dia sagrado") que vão continuar são os religiosos, porque constituem irrupções da eternidade no tempo. Jamais os cristãos vão deixar de comemorar o Natal e a Páscoa; essas datas, importantes até para quem não crê ou possui outras convicções religiosas, são a base da civilização humana. Por isso, o fato mais importante do carnaval, para mim, é a Quarta-Feira de Cinzas (por sinal, tema e título de um belo poema de T. S. Eliot, meu poeta preferido).
5. Confesso que um dia já botei o bloco na rua, nos agitados anos 90. Quem nunca? O meu caso foi na pequena e querida cidade de Mirandópolis. Lá nós tínhamos um bloco carnavalesco chamado Manicômio (nome bastante apropriado). Mas parece que em Mirandópolis o carnaval acabou também, o que era de se esperar numa cidade cuja principal escola de samba se chamava Beija-Folha (isso mesmo que vocês sete leram: Beija-Folha).
6. O pior do carnaval é aquela alegria falsa, artificial, forçada, imposta. Um sentimento que o poeta Manuel Bandeira ironiza em versos memoráveis: "Uns tomam éter, outros cocaína./ Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria./ Tenho todos os motivos menos um de ser triste". O título do poema já deixa claro que o poeta está sendo irônico: "Não sei dançar".
7. Finalmente se realiza a letra chorosa de Vinicius de Moraes: "Acabou nosso carnaval". O que nos restou, na folia, é comprar uma máscara do Japonês da Federal e esperar o depoimento do ex-presidente. Por falar no assunto, acabo de pensar em um excelente presente de pós-carnaval para o Brasil. Dez, nota dez!


