A Kombi e o Pássaro da Morte
Numa atitude correta, o prefeito determinou três dias de luto oficial pelas vítimas do acidente aéreo ocorrido nesta semana, no Distrito da Warta, em Londrina. Como todos sabem, um avião monomotor caiu sobre uma Kombi causando a morte de seis pessoas. Pouco antes do poente, o Pássaro da Morte cruzou o caminho da velha perua.
Gostaria de dizer uma palavra sobre a Kombi. Se existe um carro mais simpático, eu desconheço. Quando dizemos o nome Kombi, parece que nem estamos nos referindo a um automóvel, mas a alguém de carne e osso. Talvez seja o mais humano dos automóveis, acompanhada nessa categoria apenas pelo Fusca.

CARRO DE TRABALHO
Quem pensa na Kombi, pensa em trabalho. Criminosos – dos assaltantes comuns aos ladrões do dinheiro público – dificilmente utilizariam a perua da Volkswagen em suas ações ou fugas, até porque estabilidade e velocidade não são os fortes do veículo. Kombi nos faz lembrar quem trabalha de sol a sol: o comerciante da Ceasa, o feirante do bairro, o vendedor de caldo de cana e os trabalhadores rurais, que foram as vítimas do desastre de quarta-feira.
Durante alguns anos eu fui de Kombi para a escola. Era uma perua branca, com uma faixa amarela onde se lia em letras garrafais: ESCOLAR. Recordo-me com nostalgia do sacolejar nas poltronas pretas, da voz simpática do motorista Jaime, das nossas bolsas que tinham fecho olho-de-gato, do álbum de figurinhas de Guerra nas Estrelas, das conversas sobre futebol com os outros meninos e do inconfundível ruído do motor Volkswagen. Nós não sabíamos, mas a Kombi seria a nossa condução para sempre – pois todo mundo tem uma Kombi em sua vida.

"SÁBADO-FEIRA"
A Kombi também me faz pensar nas feiras livres de Londrina, onde encontramos verduras, legumes e frutas fresquinhas todas as manhãs. Adoro ficar passeando entre as barracas, ouvindo a conversa das donas de casa e, frequentemente, encontrando amigos tão amáveis como Pedro Scucuglia e Nelson Capucho. As Kombis dos feirantes, perfiladas na rua, são os limites desse mundo das segundas, terças, quartas, quintas e sextas. Aliás, de todos os dias: eu costumo dizer ao Pedro que o fim de semana é composto por "sábado-feira" e "domingo-feira".
Rodolfo, Renan, Flávio, Cleverson, Odirley, Luís Carlos: são esses os nomes dos trabalhadores que morreram no desastre da Warta. Em nome de todos aqueles que um dia andaram de Kombi, eu registro o meu profundo sentimento de pesar por essas vidas perdidas numa tarde triste, de um céu tão azul que não nos permitia imaginar uma tragédia dessas. Que Deus dê paz e consolação aos seus familiares e amigos.

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