Perdeu-se um óculos
No último domingo, por volta das 19 horas, minha mulher abraçou meu filho no aterro do Igapó. Ele chorava porque não havia conseguido encontrar o amiguinho Armando para jogar bola. Enquanto eles se abraçavam, os óculos escuros de minha mulher, que estavam pendurados na blusa dela, silenciosamente escorregaram e caíram no chão. Ela só deu pela falta dos óculos uma hora depois, quando estávamos chegando à casa do Armando para o Pedro finalmente jogar uma partida de futebol com o amigo.

Minha mulher voltou ao aterro do Igapó para procurar os óculos. Caminhou pelo local cerca de 30 minutos, mas, como já estava escurecendo, resolver suspender as buscas e dar o objeto por perdido. Enquanto isso, eu e o pai de Armando perdíamos um jogo para os nossos filhos pelo placar de 10 a 9, sendo que o gol decisivo foi marcado por baixo das minhas canetas. Enquanto Armando e Pedro comemoravam a vitória no futebol, liguei para minha mulher e soube que ela não havia conseguido encontrar os óculos.

ESPELHO DO MUNDO
Óculos é uma palavra curiosa. Já vem assim, no plural, de tal forma que ficamos receosos de usar o verbo no singular, mesmo quando a frase o exige. É também uma palavra pictórica, quase um ideograma, pois as duas letras "o" parecem de certa maneira representar as lentes do objeto. Um professor de semiologia diria que existe aí uma analogia entre o significado e o significante.

Mas deixemos a semiologia pra lá. O caso é que os óculos foram perdidos. Rosângela gostava muito deles. Além de protegerem suas delicadas vistas dos raios solares, que às vezes são inclementes, os óculos da Rô também a tornavam ainda mais charmosa do que já é naturalmente. Além disso, serviam como espelho para refletir o mundo.

CORTINA DA ALMA
Óculos têm uma certa qualidade metafísica. Imagine quantas cenas se passam pela frente e quantos pensamentos se passam por trás de um simples par de óculos escuros! Eles participam de momentos alegres, escondem momentos tristes e até garantem a privacidade dos instantes de reflexão. Se os olhos são a janela da alma, os óculos são a cortina.

Ah, se os óculos falassem! Contariam muitas histórias. Histórias de alegria, como a do dia em que o Pedro nasceu. Histórias de dor, como a do dia em que minha mãe morreu. Histórias de viagens, de passeios, de emoções – e de trabalho, muito trabalho. Aquelas lentes foram as câmeras de um filme que está gravado em nossa memória e que um dia, quem sabe, vamos rever ao lado de Deus.

Diante daqueles óculos, passaram personagens que hoje continuam próximos e outros que se distanciaram – no sentido do coração e no sentido da geografia, que muitas vezes não coincidem.

Por isso eu peço aos meus sete leitores: se encontrarem um par de óculos escuros nas imediações do Lago Igapó, por favor, entrem em contato com este colunista. A recompensa é uma crônica. Mas, se acharem os óculos sem lentes, cuidado: é armação!

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