Avenida Paraná Atualizado em 18/02/2016, 15:12
AVENIDA PARANÁ
Meu filho, eu não sei dizer por que algumas crianças morrem. Este é um daqueles mistérios que nós só vamos resolver quando perguntarmos diretamente a Deus. Só sei que acontece algumas vezes, e é muito triste. Nos últimos dias, partiram três meninas: a Isabelly Vitória, a Ana Lívia e a irmãzinha do meu amigo Thomas.
Na sexta-feira, vi um bijuzeiro na Rua Goiás. Bijuzeiro é uma daquelas profissões que quase não existem mais, como chapeleiro (o homem que vendia e consertava chapéus), mecanógrafo (o homem que consertava máquinas de escrever) e ascensorista (o homem que operava o elevador dos prédios).
Ele vende seus bijus andando de bicicleta pela cidade. Para avisar que está chegando, usa um equipamento chamado matraca, que faz um som muito peculiar. Hoje em dia poucos devem reconhecer o barulho da matraca que anuncia o vendedor de bijus; mas ele continua usando o equipamento mesmo assim. As crianças que esperavam o bijuzeiro e conhecem o som da matraca agora são adultos.
Fazia uma tarde quente, depois de muitos dias de chuva. O bijuzeiro parou sua bicicleta e deixou os seus bijus na calçada em frente à lotérica. Não colocou cadeado na bicicleta nem se preocupou em proteger a sua mercadoria. Os bijus ficaram ao sol enquanto ele ia lá dentro fazer a sua fezinha na Mega-Sena. Daí eu concluí que o vendedor de bijus também deve ter sonhos, como todos nós.
Não sei qual é o sonho do bijuzeiro, meu filho. Mas vou dizer qual é o meu. Você sabe que aqui perto de casa, no santuário da Madre Leônia, tem um parquinho infantil para as crianças pobres. É um parquinho muito bonito, com brinquedos simples que fazem até gente adulta se lembrar da infância. Ali tem balanço, gangorra, cabana, casa da árvore, túnel e outras coisas legais, tudo isso em um gramado verdinho, à sombra das árvores que um dia conheceram Madre Leônia.
Eu acho que no Céu existe um parquinho muito parecido, que é para onde vão as crianças chamadas por Deus. Meu sonho é conhecer esse lugar. Por ali devem andar meu pai (seu avô Paulo), minha mãe (sua avó Aracy), a Madre Leônia, o Dom Geraldo Fernandes, a Irmã Nívea Bisognin (que cuidava do jardim da infância do Colégio Mãe de Deus) e até o cineasta japonês Akira Kurosawa (que um dia fez um filme sobre um homem que, antes de morrer, decide construir um parquinho para as crianças pobres). Ali também estão, é claro, Maria e o menino Jesus.
Quando o bijuzeiro entrou na lotérica, o coração de Isabelly Vitória parou de bater no hospital. Naquele exato momento, a pequena lutadora viu os seus amiguinhos e amiguinhas que brincam no jardim do Céu. Tenho a esperança de que um dia nós conheceremos esse lugar, meu filho. E o bijuzeiro também.





