AVENIDA PARANÁ
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
por Paulo Briguet 
Insulto de Natal
Tenho acompanhado a série de televisão "Person of Interest" (Pessoa de Interesse). É a história de Harold Finch (foto), um gênio da tecnologia que desenvolve um gigantesco sistema de câmeras de segurança para evitar crimes. O governo americano quer utilizar o sistema apenas para combater o terrorismo; Finch vai além, e coloca o aparato de segurança para proteger pessoas comuns. Eu gostaria muito que existisse um Finch na vida real para evitar crimes como os que vitimaram Alice Capellari e Antônio Quinelato em Londrina. Eles são as minhas pessoas de interesse.
Antônio Quinelato, 60 anos, foi morto na noite de Natal, quando fechava as portas do seu pequeno supermercado, na Rua Plutão, Jardim do Sol. Os bandidos queriam o dinheiro do caixa. Deram quatro tiros no comerciante. Antônio chegou a ser socorrido pelo filho, mas morreu ainda na ambulância. Os autores do crime no Jardim do Sol fugiram em um Monza cor de vinho e não foram presos até agora.
Sou amigo de Marco Quinelato, o jovem que perdeu o pai na noite de Natal. Marco é um desses craques da informática que fazem de Londrina uma Cidade Genial em TI. Tento compreender a dor do filho de Antônio. Lembro a ele que também perdi meu pai perto do Natal mas as circunstâncias não foram tão trágicas e revoltantes. Meu pai foi vítima de um câncer. O pai de Marco foi vítima de uma guerra: a guerra do crime contra os homens de bem.
E Antônio era mesmo um homem de bem, querido por todos no Jardim do Sol, onde morava e mantinha o seu supermercado há 40 anos. O comerciante dizia sempre que não cuidava apenas de sua família, mas de todas as 12 famílias de seus funcionários. Em suma, um cidadão que trabalhava com afinco do raiar ao pôr do Sol, como fez no dia de sua morte, essa tragédia inaceitável que eu definiria como insulto de Natal.
A BOLSA E A VIDA
Alice de Paula Gomes Capellari seria uma pessoa de interesse para Harold Finch. Moradora de Douradina (PR), tinha 66 anos e havia acabado de conhecer o netinho recém-nascido em Londrina. No último sábado, 9 de janeiro, ela parou o carro para ir a um caixa eletrônico na Avenida Bandeirantes, perto do Hospital Evangélico. Foi abordada por três assaltantes armados, que lhe exigiram a bolsa. Mesmo tendo entregado o que eles queriam, Alice ficou assustada, acelerou o carro e foi morta pelos bandidos. Isso tem nome: crueldade.
Antigamente os ladrões diziam: "A bolsa ou a vida!" Eram tempos quase românticos. Os bandidos contemporâneos não se contentam com a bolsa; querem também a vida de suas vítimas. Mulher do dr. Ângelo Capellari, médico e diretor do Hospital de Douradina, Alice trabalhou por mais de 40 anos ajudando a salvar vidas. Veio a morrer perto de um hospital onde pouco antes nascera uma criança. No dia em que eu me habituar a mortes como as de Alice e Antônio, por favor, me avisem: não merecerei escrever nem mais uma palavra.
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