Toma o meu coração, Ana Lívia
O coração da menina Ana Lívia parou de bater na madrugada. Por um instante, o meu coração deixa também de bater, em respeito à dor. E nenhuma imagem da dor é mais nítida do que a morte de uma criança.

Ana Lívia – que tem o nome da heroína de James Joyce – passou por um transplante cardíaco em junho do ano passado, no Hospital Infantil de Londrina. Com a exceção de um internamento de 19 dias, algum tempo após a cirurgia, a menina parecia bem. Havia feito uma consulta na sexta-feira, e nada de anormal foi constatado.

Lembro-me que Ana Lívia saiu do hospital vestida de princesa. Agora, está no Reino, onde se encontrará com a primeira dona de seu coração: a adolescente de Santa Catarina, vítima de atropelamento, cuja família autorização a doação para o transplante de Ana Lívia.

POEMA PARA A PRINCESA
Ana Lívia, Anna Livia Plurabella, você me fez lembrar os versos de Alberto da Costa e Silva:

Usa o meu coração, se o teu já tens gasto,
feito a pedra de mó que a faca alisa, cava
e parece estender como massa de trigo
sobre a mesa molhada. Usa o meu coração

como o trapo que limpa a sujeira das tábuas
e enegrece de pó, e se pui, e se esgarça,
se com ele se invertem este dia adverso
e esta noite perversa. Usa o meu coração

para nos esconder, como aos olhos as pálpebras,
do cansaço do tempo, do bolor nos retratos,
e jogar para os céus, ao abrir das janelas,
qual um sonho ou um parto, os pardais e os canários.

MORO E OS 40 LADRÕES
– Pai, quem é aquele narigudo na televisão?
– É um grande amigo do papai e da mamãe, filho. Seu nome é Marcelo Rocha, ele trabalha como repórter nacional. Nasceu e estudou aqui em Londrina.
– Seu amigo narigudo fica falando sobre uma tal Operação Lava Jato. O que é isso?
– Lembra que eu te contei ontem a história do Ali Babá e os quarenta ladrões?
– Claro que lembro! É uma história bem legal.
– Pois então. Um grupo de homens maus – parecido com os quarenta ladrões da história – roubou o dinheiro do Brasil. Aí surgiu um homem chamado Sérgio Moro e encontrou a caverna onde eles guardaram o dinheiro roubado. Agora, o Moro quer devolver o dinheiro para o Brasil e botar os ladrões na cadeia.
– Quando o Marcelo Rocha vier visitar a gente, posso pedir uma coisa pra ele, papai?
– O quê, meu filho?
– Eu queria conhecer esse Sérgio Moro. Ele parece um herói.

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