Comentário sobre a chuva
– Pai, quando é que vai parar de chover? Quero brincar lá fora.
– Não sei, meu filho. Só o meteorologista sabe.
– Se ele é meteorologista, entende de meteoro. Será que sabe de chuva?
– Acho que sim. Ele estudou as nuvens.
– Quer dizer que ele lê as nuvens do mesmo jeito que a gente lê as letras, né?
– Quase a mesma coisa.
– E se esse for o dilúvio?
– Não se preocupe, filho. Deus prometeu a Noé que nunca mais mandaria um dilúvio.
– Eu já estava procurando uma namoradinha para o Cisco levar com ele na Arca.
– Não precisa fazer isso. Aliás, está na hora de passear com o Cisco.
– Com essa chuva?
– Com essa chuva. Mas quem sabe o Sol aparece e a gente vê um arco-íris.

ORIGENS DO CISCO
Cisco, o vira-lata, apareceu num dia de chuva – magro, molhado, feio e perdido. Foi salvo pela amiga e jornalista Karla Matida. À noite, quando cheguei em casa, Rosângela estava com um cachorrinho no colo, ainda feio e magro, mas de banho tomado. Era o dia do meu aniversário. Um mês depois, descobrimos que a Rô estava grávida. Cisco veio com a chuva e anunciou o Pedro.

IT’S RAINING!
A chuva é inspiradora. Penso na última peça de Shakespeare, A Tempestade, na qual diz o personagem Próspero: "Somos feitos da matéria dos sonhos". Em 1981, cantávamos Deixa Chover, de Guilherme Arantes, em um acampamento de férias: "Deixa chover! Ah, deixa a chuva molhar! Dentro do peito tem um fogo ardendo que nada vai apagar". Na República da Rua Humaitá, o hit era Chove Chuva, de Jorge Ben (sou anterior ao nome Benjor): "Chove chuva, chove sem parar..." O Betão, hoje em dia fluente no inglês, fazia tradução simultânea para um casal de suecos: "It’s raining, it’s raining!"

O MONSTRO DO LAGO
Aqui em Londrina, com a enchente do Igapó, houve quem temesse o reaparecimento de uma lenda urbana: o monstro do lago Nedson. Cheguei a receber por e-mail umas fotografias da criatura, mas eram evidentemente montagens. Brasileiro brinca muito nessas horas. E londrinense brinca mais, apesar dos estragos causados pelo clima.

MEU TEMPO É QUANDO
Gosto muito de um poema de Vinicius de Moraes que diz: "Nasço amanhã / Ando onde há espaço / – Meu tempo é quando". A meu ver, trata-se de uma definição moderna da esperança, virtude que nos leva a continuar fazendo o necessário mesmo quando a chuva está caindo. Imaginem vocês, meus sete leitores, como os pioneiros – sem asfalto, sem luz, sem estrutura – deveriam sofrer com as chuvas nos anos 30 e 40. Só resistiram porque não eram feitos de açúcar – eram feitos da substância dos sonhos. Próspero tinha razão.

ARCA
E fiquem sossegados, meus sete amigos: tudo indica que a Arca não sairá às 18 horas da Rodoviária. É mais um boato londrinense.

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