Imagem ilustrativa da imagem Avenida Paraná - Oração por Fidel
| Foto: Osvaldo Sierra/AFP


Por temperamento e convicções religiosas, jamais comemoro a morte de alguém. No Sermão da Montanha, Jesus ordena até que oremos pelos nossos inimigos, e é o que pretendo fazer pelo inimigo da espécie humana que faleceu em Cuba. Antes, porém gostaria de rezar por algumas outras pessoas.
Rezo pelo poeta Heberto Padilla (1932-2000), que em 1971 foi obrigado pela polícia do ditador a confessar crimes e traições que não cometeu. Humilhado e aprisionado por Fidel, exilou-se nos EUA em 1980, após protestos de alguns intelectuais americanos e europeus. Deprimido, morreu longe da terra que amava.
Rezo pelo escritor Luis Manuel Garcia (1959-), que passou a infância na ilha de Fidel. Filho de um comerciante considerado "gusano" (verme) pelos revolucionários, viu o pai perder todos os bens e ser submetido a trabalho escravo por tentar sair do paraíso socialista. Em 1970, um ano antes de escapar da ilha, Garcia teve uma das maiores tristezas de sua infância, quando Fidel Castro simplesmente proibiu o Natal em Cuba. (A proibição seria revertida com a visita do papa João Paulo II, em 1998.)
Rezo pelo escritor Reinaldo Arenas (1943-1990), que foi perseguido, censurado, preso, torturado, escravizado e exilado por um único motivo: ser homossexual na terra dos machões socialistas. Antes de sua trágica morte, Arenas escreveu: "Ponho fim à minha vida porque não posso continuar trabalhando. Só há um responsável: Fidel Castro. Os sofrimentos do exílio, a dor de ter sido banido, a solidão e as doenças contraídas no desterro — certamente não teria sofrido isso se pudesse ter vivido livre em meu país".
Rezo pelo escritor Roberto Ampuero (1953-), que viveu um inferno na ilha socialista, após separar-se da filha de um ministro de Fidel e cair em desgraça com a elite dirigente cubana, tendo vivido como indigente até conseguir escapar do país.
Rezo por aqueles milhares de cubanos que não tiveram a sorte de dominar o dom da escrita e, portanto, pereceram em silêncio. Os 5.621 fuzilados. Os 1.163 assassinados extrajudicialmente. Os 1.081 presos políticos mortos no cárcere por maus tratos. Os 1.258 guerrilheiros anticomunistas mortos em combate. Os 14.160 soldados cubanos mortos em missões no exterior. Os 77.824 mortos em tentativas de fuga do país. Os 5 mil civis mortos em ataques químicos em Mavinga, Angola. Perdeu a conta? Eu perdi.
Diz a lenda que Santo Antão do Deserto ficou admirado quando conheceu um alfaiate que a cada ponto da costura dizia: "Jesus, salvai uma alma". Millôr Fernandes dizia que o comunismo é uma espécie diferente de alfaiate, que quando a roupa não está boa faz ajustes no cliente. Fidel Castro era exatamente tipo de alfaiate, em oposição ao primeiro. No entanto, a misericórdia divina é tão grande que pode até mesmo salvar a alma do comandante genocida. Porque Deus é fiel.

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