Avenida Paraná - Oração da UTI
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terça-feira, 06 de dezembro de 2016
por Paulo Briguet 

Um grande amigo contou-me, quando fizemos juntos uma longa viagem, que certa vez havia sido internado durante o Natal. Sem poder receber visitas, ligou para um padre e ouviu uma frase que o consolou:
Estar no hospital, filho, é reviver o presépio!
Enquanto escrevo estas palavras, sei que meu amigo está internado outra vez. Após complicações cardíacas, desenvolveu um quadro infeccioso. Humildemente peço a vocês, meus setes leitores, que dediquem um pensamento a esse homem que luta pela vida na solidão de uma UTI. Assim como ele, há muitas pessoas homens, mulheres, crianças que neste dezembro revivem o presépio nos leitos dos hospitais.
Se você não acredita em Deus, como eu não acreditei um dia, faça como fiz há muitos anos. Em um momento de extrema angústia, supliquei a uma amiga cristã:
Peça ao seu Deus para me ajudar!
Certamente ela atendeu ao meu pedido, porque Deus me ajudou, acolhendo-me com o perdão. Hoje sou eu que rezo por meus amigos, inclusive (e principalmente) aqueles que não creem. Não me sinto superior a eles; pelo contrário, na hierarquia da Igreja eu ocupo o lugar menos nobre: o de pecador. A presença de Deus, agora reconhecida, evidencia minha pequenez.
Quando fiz aquele pedido à minha amiga, todo o meu ser espiritual era uma grande ferida infeccionada. Tudo que eu via à frente era prazer e poder; as outras coisas pareciam não ter valor algum. Naquela época era 1999 fiz uma viagem à cidade de Mariana, em Minas Gerais, e vi uma igreja barroca que acabara de ser destruída por um incêndio. Quando contemplei aquela imensa ruína, pensei comigo mesmo:
Esta é a minha alma!
Perdoem, ó meus sete amigos leitores, se tantas vezes volto à mesma história. Mas é que possivelmente se trata do acontecimento central da minha vida. A partir daquela hora, comecei a me reconstruir. A visão da igreja incendiada foi a resposta de Deus à oração de minha amiga.
Neste final de semana, conversei com o padre Rafael Solano, que nasceu na Colômbia. Disse a ele da minha admiração pelo povo colombiano, que agora, com a tragédia da Chapecoense, deu ao mundo uma nova lição de grandeza e compaixão. Trata-se de um povo que se reconstruiu após ser submetido por muitos anos aos flagelos do narcotráfico e do terrorismo. Eles conheceram o sofrimento e agora podem nos ajudar. "Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados!" (Mt 5,4)
A alma do Brasil está consumida como aquela igreja em Mariana. A tragédia da Chapecoense foi mais uma tragédia que se abateu sobre o país. Neste dezembro de 2017, a nação está na UTI, ferida por uma sucessão de flagelos políticos, institucionais e, sobretudo, espirituais.
Sim, o nosso país está no hospital, lutando pela vida. Mas lembremos que essa UTI é também um presépio. Aparentemente estamos morrendo mas, na verdade, estamos nascendo.
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