Imagem ilustrativa da imagem Avenida Liberdade
| Foto: Shutterstock



Todos carregamos na alma as dores e alegrias daqueles que vieram antes de nós. Alguns poucos saem em busca dessas origens para entender um pouco melhor a vida presente. Foi o caso do meu amigo Rubens Marchi Filho, jornalista londrinense que recentemente visitou os países bálticos, de onde vieram seus antepassados.

A viagem do Rubão, acompanhado da esposa Aline, começou na avenida principal de Riga, capital da Letônia. Essa avenida já se chamou Alexander, Hitler e Stálin, conforme a Letônia esteve sob a dominação czarista, nazista e comunista. Hoje seu nome é Avenida Liberdade (Br?v?bas, em letão). Impossível não se emocionar! Rubão, sempre bem-humorado, diz que até os cabelos da foto do seu RG ficaram arrepiados com a história do lugar.

Na Lituânia, Rubão conheceu o cenário inicial de uma história familiar digna de romance. Após a Revolução Comunista de 1917, seu bisavô Alexandre, um militar lituano, teve que fugir do país com a família. O irmão de Alexandre já havia imigrado para a Argentina, e mandou uma carta orientando o irmão a descer no quinto porto. O problema é que houve um surto de escarlatina no navio e foi feita uma parada extra em Recife para a entrada de médicos, de tal sorte que o "quinto porto" ficou sendo o de Santos. Isso explica por que meu amigo Rubão é pé-vermelho e não argentino. (Com os Briguet aconteceu algo semelhante, embora menos romanesco: a família de meus antepassados belgas se dividiu espontaneamente entre o Brasil e a Argentina.)
Nos três países bálticos irmãos — Estônia, Letônia e Lituânia — Rubão conheceu um povo alegre, simpático, acolhedor (a gente até desconfia de onde vem a simpatia do Rubão, cuja risada meu irmão Marcelo Rocha imita com maestria). Nas palavras do meu amigo: "As cidades são lindas, a comida é farta e deliciosa, zero violência, além de ser um banho gelado de história".

Um dos lugares mais impressionantes visitados por Rubão e Aline foi o Museu das Vítimas da KGB, em Vilna, capital lituana. Ali padeceram os prisioneiros da polícia comunista, na época em que a Lituânia foi dominada pela União Soviética. Numa das celas, há uma pequena plataforma redonda alguns centímetros acima do chão, onde os presos tinham que se equilibrar para não caírem na água gelada que inundava o calabouço. As temperaturas, no inverno, chegam a 20 graus abaixo de zero. A alegria do povo báltico se torna ainda mais admirável em tudo que essas nações já sofreram sob a frieza do regime totalitário.

Termino de escrever estas palavras sobre a viagem do Rubão — velho amigo e competentíssimo colega de ofício — ouvindo a música de Arvo Pärt, talvez o maior compositor vivo, nascido na república báltica da Estônia.

Como disse ele, ao final da jornada: — Paldies! (Obrigado, em letão.)

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