Autonomia ou aristocracia?
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 16 de dezembro de 2016
por Paulo Briguet 

Nos tempos de antanho, uns esquerdistas sequestravam embaixadores; agora, outros sequestram palavras. Nos tempos de antanho, uns assaltavam bancos; agora, outros assaltam ideias. Nos tempos de antanho, uns expropriavam cofres particulares; agora, outros expropriam cofres públicos.
Claro que é apenas uma minoria entre a esquerda que se dedica a essas atividades. Sequestrar, assaltar e expropriar são ações realizadas por companheiros altamente especializados e poderosos dentro da organização criminosa. A grande maioria fica apenas a aplaudi-los e, se possível, fazer vista grossa para as coisas feias que os companheiros executam. É triste ser esquerdista; falo por experiência própria. Mas, por ora, deixemos os assaltantes do dinheiro público e tratemos, hoje, apenas dos assaltantes de palavras.
Entre as palavras sequestradas pela companheirada, eu destacaria algumas: ética, cidadania, tolerância, democracia e... autonomia.
Para alguns professores-militantes, que ignoram ou fingem ignorar o papel da sociedade civil na criação da universidade, a autonomia universitária pode ser resumida numa simples frase: "Vocês pagam tudo e a gente faz o que quiser". Isso não é autonomia, é aristocracia!
Não é por nada não, mas eu recomendaria um certo comedimento a alguém que comemorasse a 86ª posição em um ranking de universidades latino-americanas ou a 23ª colocação no ranking de um jornal paulista. Tudo bem, parabéns, só que 86º lugar não é assim, digamos, uma classificação exatamente gloriosa. Há muito a melhorar. Contudo, ainda que uma universidade ocupasse o primeiríssimo lugar nos rankings brasileiros e internacionais, ela teria a obrigação a prestar contas para a sociedade em que está inserida e que a financia por meio dos impostos. A universidade, assim como o governo, assim como o almoço, não é grátis. Aliás, é bem cara.
Por isso, tomemos cuidado com as palavras.
Ética é bom. Mas não a do Movimento pela Ética na Política, criado pelo Zé Dirceu nos anos 90.
Cidadania é bom. Mas não com cidadãos de primeira e segunda classe: uma elite que faz o que bem entender, enquanto a imensa maioria paga a conta.
Tolerância é bom. Exceto diante do intolerável.
Democracia é bom. Desde que não se considere democracia depredar o patrimônio público, dar vazão a "impulsos transgressores" e defender a morte de adversários políticos.
Autonomia é bom. Desde que não seja autonomia apenas para o gozo dos direitos, sem o cumprimento dos deveres. A autonomia deve existir em prol do bem comum, e não de uma aristocracia rebelde.
Não existe autonomia diante das leis e do povo. Não existe autonomia no caos. A não ser para aqueles que acreditam na regra máxima da Granja Socialista de Orwell: "Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros".
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