As almas mortas do poder
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
por Paulo Briguet 

Quando eu era menino, uma das coisas que muito me impressionavam nos noticiários de televisão era o "estado de calamidade pública", que os prefeitos e governadores decretavam diante de tragédias coletivas, como enchentes, vendavais, deslizamentos e outros desastres naturais. Depois que me tornei adulto, vim a descobrir que o pior estado de calamidade é aquele em que o Estado é a própria calamidade.
A palavra calamidade vem do grego "Cálamos", que designa um filho do deus-rio Meandro. Diz a lenda que Cálamos chamou um amigo para nadar no rio de seu pai, mas a diversão acabou com o amigo morrendo afogado. Durante a Roma antiga, quando alguma tempestade destruía os talos de trigo (calamos), causando a perda da safra, os agricultores diziam que havia ocorrido uma calamidade.
As calamidades contemporâneas não são resultado de fenômenos naturais, mas decorrem das ações e omissões humanas. Em minha inocência infantil, eu jamais poderia imaginar que os principais causadores de calamidades seriam os políticos que decretavam calamidade pública.
Nesta semana comecei a ler o romance "Almas Mortas", de Nikolai Gogol. O livro conta a história do ex-funcionário público Tchítchicov. Ele viaja de aldeia em aldeia na Rússia czarista "comprando" almas de servos (escravos) que já haviam morrido, mas ainda eram considerados vivos pelo governo. O truque do picareta é conseguir polpudos empréstimos e financiamentos do Estado russo oferecendo as "almas mortas" dos camponeses como garantia.
O mundo mudou, mas a picaretagem continua a mesma. No Brasil, o novo nome da escravidão é Estado. Ele controla a vida dos servos (nós, o povo) através de impostos, inflação e corrupção. A Operação Lava Jato tem revelado os nomes das almas mortas que nos assombram e governam; porém, se não diminuirmos o tamanho do Estado, continuaremos lutando contra a febre sem atacar a origem da doença.
O Brasil vive hoje um estado de calamidade institucional. Ninguém tem autoridade moral para fazer nada, nem mesmo aquilo que é decisivo para a sobrevivência do País, como a PEC dos gastos públicos e a reforma da Previdência. A única ilha de legitimidade são os agentes públicos que atuam na Lava Jato. Dá para contar nos dedos da mão direita o número de políticos que ainda dispõem de algum respeito entre a população.
Diante de tamanho caos, qual deve ser resposta do cidadão comum, que trabalha, ama sua família e tenta cumprir seus deveres? O filósofo alemão Eric Voegelin, uma das maiores cabeças do século XX, dizia que a melhor resposta que podemos oferecer a um mundo corrompido é cultivar uma alma ordenada. Nosso dever é lutar pelo bem comum e dizer a verdade em todos os momentos, inclusive quando os pequenos Renans de cada dia tentam ocupar espaços e mandar em nossas vidas. Com fé, esperança e amor ao próximo, precisamos retomar o controle sobre nossa existência cotidiana e resgatar as instituições vampirizadas pelas almas mortas da política.
O primeiro passo é não se calar diante da calamidade.
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