Imagem ilustrativa da imagem Aquela que chora
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1. Meu amigo taxista perdeu a esposa na semana passada. Com apenas 30 anos, ela sucumbiu a um câncer de mama — a mesma doença que vitimou minha mãe e que mata milhares de mulheres por ano no Brasil. Sei que a jovem senhora deixou um menino, aluno do meu amigo Carlos Nadalim. É nessa criança que penso agora, pedindo a Deus que lhe dê a consolação de um carinho eterno.

2. Reviro as minhas gavetas à procura de um documento que não encontro. Mas São Longuinho me faz achar outra coisa, bem mais importante e valiosa: o livro "Magnificat", de Pierre Van Der Meer de Walcheren (1880-1970), que há muitos anos me foi presenteado pela escritora londrinense Lygia Schrank Araújo. "Magnificat" reúne os diários do autor holandês entre 1936 e 1962. A vida tem dessas alegrias inesperadas. Obrigado, Lygia.

3. No dia 17 de outubro de 1943, na Holanda ocupada pelas tropas nazistas, Walcheren escreve: "Aviões sobrevoam o país; para que missão de morte? Nossa Senhora da Salette, livrai-nos da tortura, da mentira, dos ultrajes à verdade, da tolice, das vilezas, da crueldade, da injustiça. Protegei-nos. Imensa é a nossa angústia. No entanto, confiando cegamente em Deus, sabemos que assim está bem, sempre bem…"

4. Olho para o calendário e vejo: é o Dia de Nossa Senhora da Salette. Em 19 de setembro de 1876, há exatamente 170 anos, a Mãe de Deus apareceu a duas crianças camponesas que pastoreavam ovelhas no alto de uma montanha na França. A santa chorava e lhes disse: "Se meu povo não quiser se submeter, sou força a deixar cair o braço do meu Filho. É tão forte e tão pesado que não posso suportar".

5. O escritor francês Léon Bloy (1846-1917) publicou um livro inspirado na aparição da Salette, intitulado "Aquela que chora". Para Bloy, o maior milagre é a ignorância universal sobre o assunto, além da hostilidade de um grande número de pessoas. Até quando vamos ignorar as advertências e terríveis da própria Mãe de Deus em lágrimas? "Há quanto tempo eu sofro por vocês, e não se importam com isso", disse Nossa Senhora aos pequenos camponeses. E nós não a ouvimos até hoje!

6. Abro ao acaso um outro livro, que sempre me acompanhou ao longo destes anos: "Trópico de Capricórnio", de Henry Miller (1871-1980). Na página 174, leio: "Começo a chorar — ali mesmo nas escadas do trem elevado. Soluço alto, como uma criança. Agora a verdade me surge diante dos olhos com absoluta clareza: Você está sozinho no mundo! Você está sozinho… sozinho… sozinho… É duro estar sozinho… duro, duro, duro, duro. Isto não tem fim, é insondável e é o destino de todo homem na Terra, mas especialmente o meu".

7. Não, meu caro Henry. Você, que tantas vezes me ajudou nos momentos de angústia, não está sozinho. Há alguém ao nosso lado, alguém que chora por você. E por mim. E por meu amigo taxista.

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