Imagem ilustrativa da imagem Aonde foram todos?
| Foto: Paulo Briguet



"A terra estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas." (Gênesis 1,2)

Então eu me vi caminhando pela Avenida Paraná. Era uma claríssima tarde de inverno, com aquele céu que tão bem conhecemos em Londrina. A única diferença em relação aos outros dias estava na absoluta ausência de pessoas.

Com a exceção deste cronista de sete leitores e de seu cãozinho Cisco, que conduzia o dono pelo Calçadão, não havia mais sinal de vida. O estranho é que se tratava de uma quarta-feira, preto na folhinha, semelhante ao dia de hoje. Mais estranho ainda era o fato de que as lojas estavam abertas, como se todos tivessem subitamente fugido ante alguma ameaça, deixando tudo para trás. Cisco farejava o caminho, deixava sua marca nos postes, mas também parecia perturbado por não encontrar ninguém mais além de seu dono perplexo.

Entramos, eu e meu vira-lata, na agência do Banco do Brasil, mas os caixas eletrônicos piscavam para ninguém. Cisco nunca havia entrado numa agência bancária, achou o lugar curioso, mas não deixou sua marca ali. Não havia clientes nem funcionários; não havia nem mesmo aquela senhora, de baixa estatura, que há muitos anos passa os dias à entrada do banco. As cadeiras dos engraxates estavam ali em frente, mas não havia nenhum menino para gritar: "Vai um brilho, doutor?" O microfone do sindicalista estava lá, mas não tinha sindicalista.

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Seguindo adiante, notei que os semáforos abriam e fechavam para ninguém, pois não havia motoristas nem pedestres. O rapaz que toca rock dos anos 70 não se encontrava ali, tampouco o homem que tenta vender uma vitrola por R$ 1.200,00. Os aposentados da Boca Maldita não discutiam política e os estudantes do colégio estadual não matavam aula. As escadas rolantes da loja de departamento subiam e desciam à toa, sem passageiros. O cartório estava aberto, mas, se o referido era verdade, ninguém poderia dar fé. Cisco latiu, mas era apenas o seu reflexo na vitrine da joalheria.

Quando passei pela frente da antiga agência do Banestado, fechada há vários anos, lembrei-me do assalto ocorrido em 10 de dezembro de 1987. Poucos metros adiante, o chafariz estava seco. Antigamente, o chafariz era um coreto; e diante desse coreto, em setembro de 1989, Lula discursou em cima de um caminhão de som. Eu usava a estrelinha no peito e o aplaudia, ao lado de meu amigo Ezequias.

Entro na farmácia, completamente deserta, e ouço o telefone tocando. Vou até o aparelho, atendo a ligação e reconheço a voz de meu pai: "Paulão, vá até a caixa d'água. Lá você encontrará alguém". Antes que eu pudesse me despedir ou perguntar como ele estava, a ligação é interrompida. Vamos, eu e Cisco, até a caixa d'água, que em algum momento da história foi o ponto mais elevado da cidade. Na esquina com a Higienópolis, vejo Seu Lourival, o vendedor de bijus. Ele sorri:

- Não apareceu ninguém hoje, filho. Mas tem dia que é assim...

Agradeço, feliz por encontrá-lo, compro um biju e desço a Higienópolis, guiado por meu cachorro, em busca de uma resposta.

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