Alma em chamas

Dia desses um professor comunista, numa tentativa de me criticar, disse que eu possuo uma "alma em chamas". Confesso que nunca recebi um elogio tão profundo! Lembrei-me de uma ocasião em que meu amigo Olavo de Carvalho deu uma nota de cinquenta reais a um mendigo e foi saudado da seguinte forma:
Sangue bão!
A diferença entre o mendigo e o professor é que o mendigo fez um agradecimento sincero e o professor, um elogio involuntário. Mais uma vez comprovou-se a tese de Paulo Francis: "A melhor propaganda anticomunista é deixar o comunista falar". Livre para dizer o que pensa, o acadêmico acabou por evocar um dos símbolos mais poderosos da vida espiritual. De fato, todo cristão tem uma alma em chamas, mesmo que seja um reles pecador como eu. Graças a Deus.
Segundo o "Dicionário dos Símbolos", de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, a chama simboliza, nas mais diversas tradições culturais, a purificação, a iluminação e o amor. "É a imagem do espírito e da transcendência, a alma do fogo." Claro está que o professor pretendeu referir-se ao sentido pejorativo da palavra, a chama como brandão da discórdia, da inveja, da revolta. Mas acho que o tiro saiu pela culatra; afinal, quem defende a primazia da luta de classes e o combate aos ricos não sou eu.
Quem tem a alma em chamas não queima ônibus, nem pneus, nem livros, só queima pestanas; coquetel Molotov costuma ser um instrumento de almas mortas. A propósito, o referido coquetel me faz pensar no líder comunista Viatcheslav Molotov, corresponsável por milhões de mortes na União Soviética, que morreu aos 96 anos, sonhando com o antigo líder: "De repente, eu me vejo numa cidade em ruínas e encontro... Stálin!" (Imagino que um sonho parecido deve habitar as almas de todos aqueles que acreditam na utopia socialista.)
No Livro dos Atos, o Espírito Santo desce sobre os doze apóstolos reunidos no Cenáculo: "Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. Apareceu-lhes então uma espécie de línguas de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles" (At 2, 1-3). As chamas representam, no caso, a energia transformadora que emana do próprio Deus.
A alma em chamas é uma alma viva. Uma alma que não se omite, que sente compaixão, que se interessa pelo bem do próximo e não por algum vago ideal coletivista. Creio que ainda não cheguei a esse estágio de evolução, mas o fato de que outros pensem o contrário me enche de responsabilidade. Se ainda não tenho a alma completamente em chamas, ao menos sei que ela não está morta. Ou, como diria Camões: "Estou em paz com a minha guerra".
De qualquer modo, ouvir dizer que a gente tem a alma em chamas vale bem mais do que os cinquenta reais que o filósofo deu ao mendigo. Só me resta concluir esta crônica ígnea com o mesmíssimo agradecimento:
Sangue bão!
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