Ah, essas bodas de aço...
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de novembro de 2018
Paulo Briguet 

Minha amada Rosângela,
Agora nós completamos 11 anos de casados. Você sabe que o simbolismo para mim é uma coisa muito séria; portanto, dou grande valor ao fato de estarmos comemorando as nossas bodas de aço.
Lembrei-me de uma canção do Cartola que começa assim: "Ah, essas cordas de aço/ Esse minúsculo braço/ Do violão que os dedos meus acariciam..." As cordas do violão são feitas de aço porque o aço é um metal ao mesmo tempo forte e sensível: suporta as intempéries ao mesmo tempo em que emite sons melodiosos.
O aço, não custa lembrar, é uma liga de ferro e carbono. O ferro representa a força, a solidez, a implacabilidade mineral; o carbono, por estar presente na composição de toda a matéria orgânica, representa a vida. Dessa união entre elementos aparentemente opostos, resulta algo que está nos fundamentos de todas as edificações humanas, materiais ou espirituais. Cartola, que foi pedreiro, certamente sabia disso.
No entanto, o aço tem uma outra característica importante, nem sempre mencionada: a ductibilidade. Quando sofre um impacto forte, ele muda de forma a fim de garantir a estabilidade do conjunto. Como qualquer casal, tivemos nossos dias difíceis ao longo destes 11 anos; impactos que serviram para fortalecer a nossa união e nossa compreensão. Mudamos, e ouso dizer que para melhor. Aprendemos a nos reinventar com as crises, a nos ordenar com o caos. Mais do que resistentes, tornamo-nos antifrágeis.
Sei que às vezes você precisou ter uma paciência de aço para suportar minhas esquisitices e minhas piadas bobas. Não é toda mulher que aguentaria um cara que acorda cantando músicas dos anos 70 e levanta no meio da noite para escrever uma crônica. "Mãe é de aço, pai é palhaço", como diz nossa amiga Suely. Verdade. Mas acho que a bênção do casamento, consubstanciada no nascimento do Pedro, nosso melhor fruto e nosso maior tesouro, torna menores até os defeitos. Aprendemos a amá-los também, e é a isso que se chama uma família.
Quando considero o mistério da união entre o carbono e o ferro, esses elementos tão distintos e tão próximos, sou levado a refletir sobre o enigma da água e do vinho. E me lembro que o primeiro milagre de Jesus aconteceu, não por acaso, numa festa de casamento. Como explica meu querido amigo e confrade acadêmico, o Dr. José Ruivo: "Jesus decide, mesmo antes de chegada a sua hora, usar de todo o seu poder e modificar as leis da natureza que por Ele foram criadas, se bem que a pedido de uma Mulher, em si portando toda a humanidade". Nas bodas de Caná, a pedido de sua Mãe, Jesus transforma a água em vinho, "e esse vinho simboliza todas as graças de que temos necessidade para nossa salvação eterna".
O sentido de nossa vida é a permanente realização desse milagre de conversão: o ferro e o carbono convertidos em aço; a água convertida em vinho; o pão e o vinho convertidos em Corpo e Sangue; um homem e uma mulher convertidos numa criança; a morte convertida na ressurreição; o tempo convertido em eternidade.
Com amor,
Paulo.
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