Aflições de um cineasta brasileiro

Todas as vidas têm o seu Dia D. Para o cineasta pernambucano Josias Teófilo, o desembarque na Normandia talvez tenha sido o momento em que decidiu fazer um documentário sobre o filósofo e escritor brasileiro Olavo de Carvalho. "O Jardim das Aflições", que reúne entrevistas com o mestre da Virgínia, combinando-os com depoimento de amigos e intelectuais que ele ajudou a formar, com narração na voz de Roberto Mallet, promete ser um dos lançamentos mais importantes do cinema brasileiro neste ano que marca o fim da Era PT.
Mas você só vai conseguir ver "O Jardim das Aflições" se romper a barreira de censura e sabotagem que se formou em torno da película. Desde que a classe artística, majoritariamente esquerdista, soube que Josias estava fazendo um filme sobre o principal nome do conservadorismo brasileiro, o jovem pernambucano teve raros minutos de paz. O bombardeio é intenso, maciço e ininterrupto embora, na maioria das vezes, sub-reptício.
Ao ler as memórias do escritor dissidente russo Aleksandr Soljenítsin, reunidas no volume "O Carvalho e o Bezerro", lembrei-me imediatamente da atual situação do Josias. Na página 172, marquei um trecho que, transposto de Moscou para Recife, poderia se aplicar ao caso do nosso cineasta:
"Há períodos espantosos na vida de cada um de nós, em que diversas forças exteriores inesperadas se põem em movimento de repente. E foi no interior desse momento, já levado por ele, que compreendi, de acordo com meu próprio sentido, como devia conduzir-me: com a maior audácia possível, proibindo a mim mesmo tempo toda e qualquer restrição voluntária."
Há em Josias uma energia combinada com humor, um carisma temperado com persistência, um sarcasmo pontuado por compaixão qualidades que o fazem ficar às vezes estranhamente parecido com o autor de "Arquipélago Gulag".
Soljenítsin ganhou o Nobel. Quem sabe, um dia, Josias levará um Oscar.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista que o cineasta pernambucano ao blog:
Avenida Paraná: Você sabia em que confusão estava se metendo quando decidiu fazer um filme sobre Olavo de Carvalho?
Josias Teófilo: Eu imaginei que fazer um filme sobre Olavo de Carvalho me traria problemas, principalmente no meio de cinema. Estava preparado para ser expulso do meio artístico brasileiro desde o começo. Eu só não sabia que a coisa seria tão encoberta. Eles quase nunca me enfrentam abertamente, é sempre pelas costas, conspirando. Por exemplo, três membros da equipe do filme "Aquarius" tentaram boicotar "O Jardim das Aflições", tentaram convencer o diretor de fotografia que é um artista e tanto a não trabalhar no meu filme. Foram eles: Pedro Sotero, Juliano Dornelles e Fábio Leal. Fábio Leal inclusive conseguiu convencer a antiga produtora do filme a não trabalhar nele. Ora, sem profissionais não se faz filme algum, o que eles tentaram na prática foi impedir que o meu filme existisse. Daniel Aragão foi tão constrangido depois de trabalhar no filme que saiu do Brasil, foi morar nos EUA e agora está no Canadá. Não se sente em condições de voltar ao Recife, onde tem um apartamento, e onde está sua família.
Avenida Paraná: Você se identifica, de algum modo, com esse sentimento simultâneo de exílio e audácia presentes em Soljenítsin? De que forma a perseguição tem fortalecido você como artista e pessoa?
Josias Teófilo: Me identifico sim. Quando eu entrevistei Olavo pela primeira vez ele me disse: "Nada que preste foi feito na situação ideal, sempre na adversa". O que é uma verdade, e tem muito a ver com esse trecho de Soljenítsin que, por sinal, Olavo leu muito. Eu acho que todo mundo deveria ler "Arquipélago Gulag" uma obra que nos torna mais humanos, ao mesmo tempo mais sensíveis ao sofrimento humano e mais fortes. Nesse sentido, as adversidades só têm a ajudar a vida de um artista como eu de modo que eu só tenho a agradecer àqueles que tentaram boicotar meu filme e vão fazer de tudo para que ele não seja visto.
Avenida Paraná: Quais cenas você selecionaria para um curta-metragem sobre as reações a "O Jardim das Aflições"?
Josias Teófilo: Boa pergunta, porque nós de fato estamos pensando em fazer um documentário sobre o documentário, para colocar no YouTube e mostrar para todos como foi essa experiência. Não sei quais cenas escolheria, mas acho que a primeira poderia ser a das pessoas vendo o filme. É impressionante como mesmo os petistas e as feminazis gostam do filme.
Avenida Paraná: Você perdeu amigos?
Josias Teófilo: Eu perdi aquele que era um grande amigo:Kleber Mendonça Filho, o diretor de "Aquarius". Foi ele que me emprestou a câmera para fazer meu primeiro filme e me deu muito apoio no começo. Perdi muitos outros amigos, fazer "O Jardim das Aflições" coincidiu com o meu retorno de Saturno esse filme veio para destruir tudo que estava frágil na minha vida, o que na verdade foi ótimo. Mas os amigos que ganhei foram incontáveis, inclusive o próprio Olavo e família.
Avenida Paraná: Seu filme foi recusado pelos principais festivais brasileiros Gramado, Rio e Brasília. Será necessário criar uma espécie de samizdat do cinema para burlar a censura esquerdista?
Josias Teófilo: Acho que "O Jardim" pode ser distribuído comercialmente sim, nos cinemas, ele provavelmente não vai circular pelo circuito alternativo que é onde se esperava que passasse um documentário sobre filosofia. Veremos até onde vão os tentáculos da censura esquerdista.
Avenida Paraná: Obrigado, Josias. Nem precisava ter respondido tão rápido!
Josias Teófilo: É que tá tudo na cabeça já, tem nem mais o que elaborar.





