Imagem ilustrativa da imagem Adeus, minha amiga
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Então você partiu, Calula. Há muitos anos não nos víamos, por minha culpa; no entanto, você foi uma das amizades mais importantes e valiosas da minha juventude. Não quero aqui repisar as coisas ruins que lhe aconteceram — em vida, você já bebeu o suficiente do cálice da dor. Agora é o momento de recordar a sua imagem humana doce, intensa, delicada e brilhante.

Pouquíssimas vezes conheci na vida alguém com tamanha paixão pela vida intelectual. Literatura, música, teatro, filosofia e as belas artes eram o oxigênio do seu espírito. Como Flaubert, você tinha uma obsessão pela palavra ideal, perfeita: por isso, tornou-se escritora, e uma escritora talentosa. "Escrever para crianças é como escrever para adultos, só que é mais difícil", dizia Monteiro Lobato. Você sabia disso e enfrentou o desafio. Ganhou até a admiração de Paulo Francis, a quem conheceu pessoalmente em Nova York, e que partiu 20 anos antes de você.

Certo dia perguntei-lhe como seria o mundo se todas as pessoas falassem como personagens de Shakespeare. Você apenas sorriu. Hoje sei que Calula era uma heroína que o Bardo deixou escrita fora de suas peças. O mundo era o seu palco. Mas nós, o público, nem sempre estivemos à altura do seu talento.

Lembro-me das nossas longas conversas no final da adolescência. Daquelas horas luminosas eu extraí forças que me sustentam até hoje. Queria que você soubesse disto, minha amiga: seus conselhos e elogios ajudaram a transformar um menino em um homem — um homem cheio de defeitos e perplexidades, mas homem. Ah, e como eram alegres nossos reencontros em São Paulo, Calula! Tínhamos uma vida inteira a contar um para o outro, tínhamos uma biblioteca de impressões a expressar. Éramos viventes, tão jovens em nossa estranha paixão pelo absurdo.

Quando fui seu padrinho de casamento, e dançávamos a valsa no salão do Araçatuba Clube, sua mãe comentou com a minha: "Que bonita é a amizade dos nossos filhos!" Hoje eu penso que falhei como amigo, Calula, e lhe devo desculpas. Sei que fui negligente, distante, omisso. Não estive ao seu lado quando você mais precisou. Perdoe o meu silêncio e a minha distância. Consola-me, porém, saber que perdão é o outro nome de sua alma.

Uma amiga nossa viu passar o cortejo quando lhe disseram adeus, Calula. Seu corpo descansará, à espera da ressurreição, perto do lugar onde repousam meus pais. Eles a estimavam muito, Calula. Quando encontrar Aracy e Paulo, diga que tudo vai bem. Só temos saudade. Depois, releia os versos finais do soneto XXX:

"Porém, se penso, amiga, em ti nesse momento
Repara-se o perdido e cessa o meu tormento".

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