Imagem ilustrativa da imagem Adeus, Lula
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Votei em Lula nas eleições de 1989, 1994 e 1998. Fiz campanha para o PT desde os 16 anos. Usava estrelinha no peito e defendia com unhas e dentes a honestidade e os bons propósitos do "grande líder operário". Fui líder estudantil, diretor sindical, jornalista militante, ghost-writer partidário, redator de panfletos. O sonho da minha vida era o socialismo universal.

Chorei amargamente as três eleições perdidas de Lula. Simplesmente não aceitava que o povo — esse povo que tanto defendíamos — pudesse não reconhecer quem mais lutava pelos pobres, humilhados e ofendidos. À minha volta, na universidade e na redação, a maioria absoluta das pessoas pensava da mesma forma. Durante os anos 80 e 90, levantar a mínima dúvida sobre a honradez pessoal de Lula era equivalente a um pecado contra o Espírito Santo para a esquerda brasileira, hegemônica nos jornais e nas salas de aula. Nesses ambientes, qualquer um que ousasse dizer uma palavra contra o Grande Companheiro seria sugado para as profundezas do Inferno, como Don Juan na cena final da peça de Molière.

Hoje penso: — Afinal, o que nos fazia acreditar em Lula? O que nos levava a lhe entregar não apenas nossa confiança, mas o coração inteiro? Depois de muito refletir, concluo que Lula, pelo menos no meu caso, supria uma certa necessidade espiritual oculta. Abraçado ao rancor do materialismo ateu, eu via em Lula a figura do messias terrestre capaz de nos salvar da angústia e do desespero em que vivíamos mergulhados.

A prisão de Lula significa o desmoronamento (ainda não total, mas inevitável) desse mito construído laboriosamente ao longo das últimas três décadas no Brasil. Só uma profunda decepção pessoal pode afastar alguém dessa ilusão, permitindo que a pessoa veja o criminoso no lugar do líder redentor. Foi o que aconteceu comigo.

Deixar de acreditar em Lula não é um processo fácil. Levei vários anos para me desencantar completamente com ele. Quando Lula tomou posse como presidente em 2003, eu ainda acreditava que ele fosse um ignorante manipulável, quando na verdade era uma víbora manipuladora, uma inteligência do mal, o supremo comandante do sonho da Pátria Grande. Ademais, o lulismo cria em seus seguidores aquela ilusão de superioridade gnóstica, aquele sentimento de que se está acima dos mortais, tão característico da mentalidade revolucionária. Abandonar isso significa muito mais do que perder amizades, contatos, cargos, chances profissionais, sorrisos e elogios; significa mudar de planeta. É assim que eu sou visto pelos meus ex-companheiros de esquerda: um ET, abduzido pelo capital.

Às vezes fico pensando o que poderia ter acontecido comigo se ninguém me abrisse os olhos. Talvez hoje eu estivesse defendendo a "resistência ao golpe", fechando uma rodovia com o MST ou fazendo outra imbecilidade semelhante. Mas também é possível que eu estivesse apodrecendo numa cela em Curitiba, e culpando ao mundo pelo abismo cavado com minhas próprias mãos.

Por isso, não me alegro com a prisão de Lula. Apenas dou graças por estar livre dele.

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