Aconteceu em 1970
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 10 de julho de 2018
por Paulo Briguet 

Nasci em 1970, número redondo. Graças a Deus: mesmo fraco em contas, nunca tive muita dificuldade para calcular minha própria idade. Resolvi dar as caras poucos dias depois da conquista do tricampeonato por Pelé, Tostão, Rivelino & cia. Minha mãe dizia que eu assisti à Copa do México de dentro da barriga.
Era o ano do fim dos Beatles. O sonho acabou, eu comecei. Vim ao mundo de cesariana, no Hospital São Camilo, em São Paulo. No dia em que nasci, fazia frio, aquele frio de inverno paulistano. Uma semana antes, um terrorista arrependido ficara internado no São Camilo, talvez bem perto da maternidade. Descobri isso muito tempo depois, lendo uma história que os professores de esquerda não contavam. Alguns me chamariam de "filho da ditadura", mas meus pais não gostavam dos militares.
Meu Deus, 1970 me parece tão remoto! Sem dúvida, é um ano do século passado. Descubro, alarmado, que 1970 é o último dos anos 60; portanto, apesar de ter 48 anos, eu já vivi seis décadas. As armadilhas do calendário.
O fato de ter nascido em 1970 me faz duvidar que alguma pessoa adulta possa ter nascido, por exemplo, em 1997 ano em que nasceram muitos jogadores desta Copa do Mundo. Para mim, é difícil acreditar na existência de pessoas nascidas pós-1990, principalmente se elas já conseguirem andar, falar, pegar táxi, trabalhar, fazer gols, etc. Na verdade, vocês que se dizem nascidos na década de 90 devem ter falsificado documento. Isso é crime, sabiam?
Em 1970, Kerenski, o primeiro-ministro deposto pelos bolcheviques, ainda vivia no exílio (morreu no ano seguinte). Em 1970, Caetano Veloso já era chato. Em 1970, Syd Barrett já tinha saído do Pink Floyd. Em 1970, Pol Pot era um simples estudante universitário em Paris. Em 1970, 2001 parecia um ano longínquo, uma Odisseia no Espaço.
Em 1970, morávamos na Alameda Barão de Limeira, a 400 metros da Folha de S. Paulo, a 600 metros do Edifício Andraus, que pegaria fogo. Nosso apartamento era o número 13 e ficava em cima de uma lavanderia; essa lavanderia fazia muito barulho à tarde, a ponto de parecer que o apartamento era mal-assombrado. No dia em que os carros de bombeiros passaram correndo na alameda, em direção ao Andraus, o zelador matou uma ratazana na área de serviço. O incêndio, a ratazana, a lavanderia: sonho sempre com eles.
Em 1970, nosso vizinho era um grego que morava com a mulher, D. Helena, as duas filhas, Ketty e Lia, e a cachorrinha Laika. Tempos depois ele deu um golpe na praça e fugiu de madrugada, levando toda a família, menos Laika, que ficou chorando na frente do apartamento vazio. Também sonho com Laika.
Em 1970, você ainda não havia nascido, Rosângela. Mas eu sabia que alguma coisa muito importante estava para acontecer.
Em 1970, alguém que tinha a idade que completei agora teria hoje... 96 anos! Já não sou um cronista de meia-idade...
Nasci em 70. Talvez por isso tenha sete leitores.
Fale com o colunista: [email protected]


