A voz do escritor
PUBLICAÇÃO
domingo, 17 de julho de 2016
por Paulo Briguet 

Um estudante de esquerda quer me entrevistar. Vou facilitar o trabalho dele e falar hoje sobre o meu credo particular de escritor.
Embora o trabalho do escritor seja solitário, seu papel é romper a solidão e o isolamento das pessoas. Por esse motivo, não há maior alegria para um profissional das letras do que ouvir da boca de um leitor: "Você conseguiu expressar em palavras o que eu sinto!"
Sem medo de parecer demagógico, afirmo que um escritor deve dar voz aos que não tem voz àqueles cidadãos comuns que não se encontram representados por nenhum partido, nenhum movimento social, nenhum grupo de influência. Não há surpresa nenhuma em ouvir isso de um cara conservador; o grande objetivo do conservadorismo é justamente preservar os valores fundamentais da condição humana.
Escrevo, acima de tudo, para aqueles que estão perplexos. A palavra "perplexidade" designa o estado mental de alguém que não sabe o que fazer diante de uma situação inesperada, crítica ou absurda. É assim que a maioria dos brasileiros está hoje: perplexa. O escritor ousa olhar nos olhos do absurdo e dar-lhe uma forma compreensível através da linguagem, para que assim o leitor possa agir e se libertar da paralisia.
Sim, amigo leitor, eu sei que você está perplexo. Por isso quero ser a sua voz.
Quero ser a voz dos angustiados pais da adolescente que pintou o cabelo de azul e sai com um rapaz ou uma garota diferente a cada fim de semana. A voz da mãe do jovem viciado em crack que está roubando os objetos da casa para comprar mais droga. A voz do pai que não quer seus filhos frequentando festas com maconha à vontade, nem dançando peladões no campus.
Talvez eu possa ser a voz do aluno brilhante que tirou uma nota medíocre na redação do Enem porque se recusou a escrever o que os examinadores queriam e criticar a "família tradicional".
Que eu possa um dia ser a voz do universitário que é perseguido por certos docentes só porque não comunga dos ideais esquerdistas. Ou a voz daquele funcionário religioso que trabalha no campus e não pode assistir à missa na capela de madeira. Ou mesmo a voz daquele rapaz homossexual que é discriminado por entender que sexo é um assunto da esfera privada e não pertence a nenhum grupo militante.
Quero ser a voz da mulher do policial que não sabe se o marido vai voltar vivo hoje; do pai que não aceita aula de educação sexual para crianças; do psicólogo que refuta a ideologia de gênero e acha que meninas de 10 anos e homens de 50 não podem frequentar o mesmo banheiro.
Que Deus me dê forças e inteligência para ser a voz do velhinho roubado pelo ex-ministro; do artista que acredita na beleza; do pequeno empresário pagador de impostos, cheio de dúvidas e dívidas. Que cada letra e palavra aqui publicadas sejam a voz de quem, feito você, não quer nunca mais ser governado pelos assaltantes fantasiados de vítimas.
Que eu seja essa voz, ou me cale para sempre.
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