A volta ao mundo de táxi
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de fevereiro de 2017
por Paulo Briguet 

Não sou contra o Uber. Toda pessoa que deseja trabalhar tem o direito de fazê-lo. Gosto mais do táxi porque no táxi eu posso chamar os motoristas que são meus amigos, aqueles com quem tenho uma relação de confiança e camaradagem construída ao longo dos anos. Quando escolhemos um produto ou serviço, não pensamos só no preço. No entanto, pensando como um liberal, sempre vejo a concorrência com bons olhos, e repudio toda e qualquer reserva de mercado.
Ah, mas que chatice! Isto é uma crônica, não um artigo de política ou economia. Vamos contar uma piada. Você sabe qual é a única cidade que não tem táxi no Brasil? Uberlândia... (Risos, risos, risos.)
Vou de táxi porque o táxi me traz lembranças. Na minha época de solteiro, o táxi me levou e trouxe de cada uma que, meu amigo, não vou entrar em detalhes porque este é um jornal de família. Só garanto uma coisa: nunca dirigi depois de beber. Não sei dirigir.
Casei de táxi. Vi meu filho nascer de táxi. Praticamente nasci de táxi. Provavelmente vou fazer minha última corrida de táxi. O táxi me buscou e me levou tantas vezes que todas as corridas, somadas, dariam umas três voltas ao mundo. Paguei tanto táxi que daria para amortizar a dívida que o Obama deixou. (Pensando bem, não. Acho que isso só o Trump pode fazer.)
Quando estava sem inspiração, Nelson Rodrigues não tinha dúvida: entrava num táxi. Muitas crônicas e histórias de "A vida como ela é" saíram das conversas de Nelson com os taxistas. Ontem mesmo li uma inspiradíssima crônica de Rubem Braga, dos anos 50, em que ele fala sobre o fascínio dos taxistas portugueses do Rio pelos navios e barcos que cruzavam a Baía de Guanabara. De modo que, se alguém me ligar durante uma corrida, sou capaz de dizer: "Desculpe, agora não posso conversar, estou trabalhando".
É bem verdade que está difícil pegar táxi ultimamente. Por necessidade econômica, reduzi bastante o número de corridas. Vou de carona, de ônibus ou daquele único veículo que sei dirigir: meus próprios pés. Mas não se iludam: sou um pedestre barbeiro. Não fossem Jesus, a Mãezinha e o meu ninja da guarda, sei não.
A minha história preferida de taxista não é do Brasil, mas da Rússia. É o conto "Angústia", de Anton Tchekhov. Trata-se da pequena história de um cocheiro (o taxista da época) que perdeu o filho e não tem com quem conversar e chorar sua tristeza. Ele termina o conto falando com o cavalo. Deus me permita nunca deixar de dar atenção a quem precisa!
Termino esta crônica com um sincero agradecimento a todos os taxistas que me emprestaram seu tempo, seu trabalho, suas conversas e suas amizades ao longo dos anos. Que São Cristóvão (padroeiro de todos os motoristas) e Madre Leônia (padroeira da vida no trânsito) estejam sempre por perto para protegê-los. Um dia, vou chamar o táxi e ele vai me conduzir à casa em que me esperam meu pai, minha mãe, meus avós, meus amados que partiram. E a Mãe de Deus. E Deus. Nem tudo na vida é passageiro.
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