A visita do impossível
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terça-feira, 11 de abril de 2017
por Paulo Briguet 
O impossível acontece. Aqui em Londrina, estamos habituados a ele. Há exatos 70 anos, no dia 12 de abril de 1947, nossa cidade recebeu a visita de um dos homens mais eminentes do século XX: o Padre José Kentenich, fundador da Obra de Schoenstatt, milagre do cristianismo moderno.
Fazia calor naquele sábado, seis dias depois da Páscoa de 1947. Na entrada do Colégio Mãe de Deus, as alunas esperavam o "padre de barbas que vinha da Alemanha". Traziam flores nas mãos e cânticos nos lábios. Mas o padre demorava. As meninas e irmãs, vestidas para a ocasião solene, sofriam com a temperatura. Até as flores começaram a murchar.
De repente, ouviu-se o som de um motor. Era o carro do Dr. Hugo Cabral, que naquele mesmo ano tomaria posse como prefeito de Londrina. O automóvel parou diante do Colégio. Fez-se um breve silêncio, e a expectativa iluminou os rostos. A porta se abriu; de dentro do carro, saltou um homem de barbas longas, óculos e batina. Padre Kentenich sorria. Até as flores notou Aracy, uma das meninas pareciam ter voltado à vida e sorrir também.

Algum tempo antes, a visita de Padre Kentenich a Londrina pareceria impossível. Menos de dois anos atrás ele era prisioneiro do campo de concentração de Dachau, onde por várias vezes escapou da câmara de gás. Em 1943, as irmãs do Colégio Mãe de Deus receberam a notícia da morte do Padre, desmentida tempos depois. Era uma época de escassas informações e pesadas incertezas. Hoje, vivemos uma superabundância de informações, mas as incertezas continuam. Como superá-las?
Já em sua primeira fala na cidade, Padre Kentenich mostrou que a superação da incerteza e a vitória sobre o mal passam pela aceitação da cruz. Ele citou um trecho do "Hino da Minha Terra", poema composto em Dachau, que mostrava o exato oposto da vida no campo de concentração: "Conheces aquela terra, tão cálida e familiar,/ que o Amor Eterno edificou para si;/ onde corações nobres pulsam na intimidade/ e alegres no sacrifício se aceitam mutuamente; onde acolhendo-se uns aos outros,/ ardem e fluem até ao coração de Deus,/ onde com ímpeto brotam torrentes de amor/ para saciar a sede de amor do mundo?"
Submetido ao inferno, o padre alemão fez uma descrição do Céu e afirmou claramente que Londrina era uma imagem deste Céu. Incapaz de amargura, encantava-se com o que via no Norte do Paraná: "Já me contaram como era aqui há treze anos, quando tudo era mato. Agora vemos uma cidade bem desenvolvida. Faz parte desse processo o crescimento religioso-moral representado por nós".
Há 70 anos, Padre Kentenich deixou-nos uma luminosa mensagem: Londrina é a terra de consolação que ele vislumbrou no inferno de Dachau. Por isso, tão logo chegou à pequena cidade, o grande homem repetiu as palavras de Pedro no Monte da Transfiguração: "É bom estarmos aqui!"
Essas palavras ecoam até hoje e falam exatamente ao nosso coração.


