Imagem ilustrativa da imagem A verdade sobre o 'eletrochoque'
| Foto: Acervo pessoal



Recentemente houve polêmica em torno de uma portaria do Ministério da Saúde que, entre outras medidas, regulamenta e disponibiliza o uso da eletroconvulsoterapia (o popular "eletrochoque") em pacientes do SUS. Veja o que o psiquiatra e professor Marcos Liboni, do Hospital Universitário de Londrina, tem a dizer sobre o assunto:

Avenida Paraná: Como surgiu a eletroconvulsoterapia?
Marcos Liboni: A ECT começou a ser usada nos anos 1930, como forma de tratamento para doentes mentais graves, antes mesmo do surgimento das terapias medicamentosas. A técnica envolve nada mais do que aplicação de uma corrente elétrica nas têmporas, local do crânio onde a camada óssea que envolve o cérebro é mais fina. Essa corrente visa um efeito que se assemelha a um reset no computador. É um apagão, que produz um efeito corporal, por conta da falta de controle do cérebro sobre os músculos, ocasionando uma convulsão. Daí o nome eletroconvulsoterapia.

Avenida Paraná: Eletrochoque causa sofrimento?
Marcos Liboni: Hoje, com o aprimoramento das técnicas de conforto e assistência, o paciente não sofre. A ECT não dói, porque o cérebro não tem receptores neuronais de dor. A passagem da corrente elétrica não é percebida como dor, mas simplesmente como um desmaio. A pessoa fica inconsciente. Ao longo do tempo, surgiram métodos par tratar a reação convulsiva com recursos de anestesia. Nos ambientes hospitalares antigos, não havia recursos para mitigar a convulsão, então era preciso segurar ou até amarrar o paciente. Isso não existe mais: tudo é feito sob sedação e monitoração contínua. Em muitos casos só se percebe o efeito da convulsão por eletroencefalograma.

Qual a sua opinião sobre a recente medida do governo?
Na realidade, a portaria visa modernizar o sistema e oferecer tratamentos mais adequados no Sistema Único de Saúde (SUS). O uso de ECT faria com que muitos pacientes viessem a não precisar de internações. É triste que haja essa distorção política, ideológica e folclórica em torno da eletroconvulsoterapia. Discutir a importância da ECT na psiquiatria é o mesmo que discutir a importância de cardioversão elétrica em pacientes que têm parada cardíaca! Os princípios são os mesmos: aplicação de energia elétrica em órgãos do corpo.

Qual a importância da ECT?
A ECT salva vidas. Ela é indicada quando os medicamentos não funcionam ou podem impactar outros órgãos de maneira fatal. São casos gravíssimos: psicoses, ideias de suicídio, depressões profundas. Situações em que não há mais o que se fazer. Tempos atrás, indiquei a ECT em um paciente grave, depressivo há vários anos, com dificuldades relacionadas a drogas, e esse tratamento fez com que ele voltasse à vida. O paciente voltou a trabalhar, casou-se e retomou o controle sobre sua própria existência. O ECT salvou a vida dele. Esse tratamento tem que ser disponibilizado, sim. Eu apoio a medida do governo, sobretudo como médico especialista na área e professor de hospital universitário.

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