Imagem ilustrativa da imagem A um mestre, com carinho
| Foto: Shutterstock



Amigo professor,

O filme predileto de minha mãe era "Ao Mestre, Com Carinho", de 1967. É a história de um engenheiro que perde o emprego e decide se tornar professor de matemática em um bairro pobre de Londres. Passava na Sessão da Tarde.

Quando penso naquele filme, é inevitável recordar minha mãe. Ela era professora de História, e você também é. No dia 15 de outubro, eu penso em Paulo e Aracy, meus pais e meus mestres. Jovem, ele ensinava latim e matemática a alunos em dificuldade com essas matérias; mais tarde, dava aulas em cursos do banco. Durante 30 anos, ela lecionou em escolas públicas de São Paulo e Araçatuba. Sempre que algum esquerdista me manda estudar História, eu respondo:

— Já estudei. Em casa.

Não herdei o dom de meus pais. Essa herança ficou para a Fernanda, excelente professora em Bauru. Virei escritor de jornal.

Eu o conheço há muito tempo, meu amigo. Nos últimos anos, conheço a sua luta. Conheço também o respeito e o carinho que seus alunos manifestam por você. Você encheria de orgulho qualquer escola neste mundo.

Sei do seu amor pela profissão e do interesse apaixonado que você tem pelos assuntos que aborda em sala de aula. Adoro trocar ideias com você sobre política, literatura e música. Nos últimos tempos, você decidiu se aprofundar no estudo do comunismo e dos movimentos de esquerda; dentro das minhas limitações, tento ajudá-lo.

O mais bonito é que, ao ensinar História, você está ensinando a superar o tempo em direção à eternidade. Você está mostrando aos alunos aquilo que nós católicos chamamos de comunhão dos santos.

Entre as qualidades que mais admiro em você, estão seu amor pela família, sua curiosidade intelectual e a sua preocupação com a felicidade dos alunos. Você os vê como filhos, não como clientes ou companheiros de luta.

Na sala de aula, você não enxerga revolucionários, nem reacionários, nem militantes, nem cidadãos: você contempla seres humanos, filhos de Deus que merecem respeito e consideração.

Nesta recente onda de greves e invasões de escolas, seu primeiro pensamento não se dirigiu à questão salarial ou à motivação política do movimento. Você simplesmente se preocupou com os pequenos:

— Por que fazer greve a duas semanas do vestibular e do Enem?

Você levou em consideração os sonhos e os esforços daqueles meninos e meninas. Você foi além: pensou na expectativa e na esperança das famílias. Você se escandaliza com aqueles seus colegas — uma minoria, é verdade, mas uma minoria agressiva — que desejam transformar estudantes em instrumentos de luta política e reconquista do poder. Você se horroriza diante dos militantes que não hesitam em desfigurar os nossos jovens para transformá-los em servidores de uma causa mentirosa e egoísta.

Comecei a semana falando de um pai que perdeu a filha; termino-a falando de um professor que ganhou inúmeros filhos. Há muitos professores iguais a você, meu amigo. Acredito mesmo que eles sejam a maioria. Escrevo esta carta para você e para eles, e ouso fazer-lhes um pedido: — Não desistam!

Fale com o colunista: [email protected]

mockup