Imagem ilustrativa da imagem A travessia de Cony
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Carlos Heitor Cony foi um dos meus primeiros modelos literários. Na juventude, durante algum tempo, eu queria ser um cara assim parecido com ele: alguém que teve uma efetiva participação na vida pública do país, e ao mesmo tempo encontrara tempo para escrever bons livros. O tempo passou, minha visão sobre o mundo e a literatura mudou, tornei-me um caipira convicto, mas sempre mantive uma base de respeito pelo autor de "Pessach: A Travessia".

Quando o denomino dessa forma — o autor de "Pessach" —, não é por acaso. O romance publicado em 1967 certamente permanecerá como um momento importante da literatura brasileira contemporânea. Dividido em duas partes, parece realmente dois livros. E o primeiro é uma obra-prima estilística, com um manejo da ironia poucas vezes visto em nossa literatura, mais ou menos como se os espíritos do último Machado e de Albert Camus houvessem dominado a pena do escritor.

A segunda parte de Pessach — mais propriamente "A Travessia" —, embora legível, é brutalmente inferior. E não o digo por razões políticas. Quem fez isso um professor comunista, na própria orelha do livro! Durante muitos anos, correu a piada de que "Pessach: A Travessia" era um dos únicos casos na literatura universal em que a orelha falava mal do próprio livro. Mais tarde, quando o livro foi relançado, trocaram o texto da orelha por uma resenha elogiosa de Paulo Francis (grande amigo do autor — consta que Cony era a única que o chamava de "Paulo", e não de "Francis").

Muitas vezes, até hoje, releio passagens da primeira parte de "Pessach" e mergulho na linguagem impiedosa do protagonista do romance, o escritor Paulo Simões. Seus diálogos com o militante que vem chamá-lo para aderir à luta armada deveriam ser lidos por todos os estudantes brasileiros que escutaram o canto da sereia política (ou seja, todos). Embora tenha discordado muito das posições políticas do autor, sobretudo nas últimas décadas, até hoje dou muita risada quando lembro a resposta de Cony quando lhe perguntaram o que havia achado de Cuba, para onde se refugiara após ser preso e perseguido pelos militares: "Uma b..."

Mas nem só de "Pessach" vive Cony. Em 1995, ele publicou "Quase Memória", uma linda e comovente homenagem a seu pai, também jornalista. Na última quinta-feira, no consultório de minha querida amiga Suely Arantes — um consultório odontológico e literário —, reli as primeiras páginas "Quase Memória" e senti a mesma emoção de 23 anos atrás. Outros pontos altos da vida literária de Cony, em minha opinião, são o conto "Sobre todas as coisas" (inspirado nas suas torturadas memórias de seminarista) e as famosas crônicas sobre a cachorrinha Mila.

Certa vez, quase entrevistei Cony. Foi há 20 anos, num congresso de jornalistas de esquerda, em Recife. Mas, como na época eu era um militante (na verdade, uma besta), preferi entrevistar um prócere esquerdista. Se arrependimento matasse...

Vá em paz, Cony. Faça a travessia — e abrace seu pai.

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