A sombra de uma sombra
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de março de 2018
por Paulo Briguet 

Hans Christian Andersen conta a história de um homem que reencontra a sua sombra, perdida há muitos anos. Em nenhum momento o autor nos diz o nome do protagonista; trata-o apenas por "sábio". Certo dia, a sombra do sábio decidiu separar-se do dono e partir pelo mundo. A princípio, o sábio ficou chateado com a partida de sua companheira; mas logo cresceu-lhe uma nova sombra, submissa e silenciosa.
Muitos anos depois, o sábio é visitado pela antiga Sombra que agora passa a ser mencionada assim, em letra maiúscula. De início, o sábio não a reconhece. A Sombra está bem vestida e ricamente adornada com joias preciosas. Como terá adquirido tantas riquezas? Basicamente, por chantagem. Sua condição inefável lhe permitiu assistir aos segredos dos homens: o pecado do alfaiate, o crime do joalheiro, a perfídia da madame, a maldade do aristocrata. Afinal, a Sombra conhece o lado sombrio das pessoas...
Durante todos esses anos, enquanto a Sombra enriquecia, o sábio estudava a verdade, o bem e a beleza. Mas não fazia sucesso no mundo preocupado com outras coisas; estava à beira da miséria. Há, portanto, um abismo entre o sábio e a Sombra: enquanto um se preocupava com a essência, a outra investia na aparência. "Escrevo sobre o bom, o belo e o verdadeiro, mas ninguém dá importância à minha obra", lamenta-se o sábio.
O filósofo brasileiro Olavo de Carvalho ensina que a teologia medieval identificava uma linha contínua entre a verdade, o bem e a beleza. Para Duns Scot, tudo que era verdadeiro era bom, e tudo o que era bom era belo. A modernidade caracteriza-se por uma ruptura entre essas esferas: o belo pode ser decididamente mau; o bem pode dispensar a verdade; a verdade pode procurar o horrível. A multidão de sombras ameaça a integridade do homem.
O conto de Andersen, publicado em 1847, oferece-nos a imagem do homem moderno, dividido entre aquilo que é e aquilo que desejaria ser. Isso nos leva à velha questão da existência do bem e do mal. Atualmente, muitos entendem o maniqueísmo como simples crença nos dois extremos. É um erro. Os maniqueus, que constituíram uma poderosa seita na Antiguidade, acreditavam na EQUIVALÊNCIA do bem e do mal. É a origem do relativismo moderno, que S. João Paulo II e Bento XVI tanto combateram. Relativismo é achar que o homem e sua sombra têm o mesmo valor. Ou que a verdade, a beleza e o bem devem ser substituídos pelo poder.
A obra de Hans Christian Andersen em geral é povoada por vestígios e emissários de Deus. Em "A Sombra", significativamente, isso não acontece. Depois de se dedicar por anos a fio ao estudo da verdade, da beleza e do bem, o sábio entrega os pontos e aceita se tornar a sombra de sua Sombra: um subproduto daquilo que nunca foi. É o mesmo caso dos ditadores e revolucionários modernos, que se enchem de amor pela humanidade enquanto odeiam os homens considerados individualmente. O mundo sem Deus, ensina-nos Andersen, é um mundo governado pelas sombras das quais o homem precisa libertar-se, se não quiser caminhar a passos largos para o vale da morte.
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