À sombra da mangueira em flor
PUBLICAÇÃO
domingo, 05 de março de 2017
por Paulo Briguet 

Na última sexta-feira, quando o Colégio Mãe de Deus completou 81 anos, meu amigo Raphael Tait notou um fato curioso: a mangueira estava em flor. Trata-se, é claro, da bela e imensa árvore que fica ao lado do Santuário de Schoenstatt (ou Capela da Mãezinha, como dizem as crianças). Decidi ir ao local pessoalmente. Gosto de ver essas coisas com meus próprios olhos.
À sombra da mangueira, constatei que ela não apenas estava em flor, como também em fruto. A mangueira do Santuário já foi até assunto de matéria jornalística (aqui mesmo na Folha) por frutificar em diferentes épocas do ano, sem observar a sazonalidade da espécie. Um amigo observou essa característica da árvore quando acompanhou a mãe numa visita ao Santuário.
A sombra, a flor e o fruto da velha mangueira estão intimamente ligadas às três graças oriundas do Santuário de Schoenstatt: acolhimento, transformação e fecundidade. Milhares de pessoas por ano vão àquela igrejinha, construída em 1950, em busca desses três presentes que Deus oferece pelas mãos de Maria.
Recentemente, por sugestão do amigo Alexandre Sanches, tive a oportunidade de escrever sobre as árvores frutíferas que existem nos lugares públicos em Londrina. Duas delas se encontram no começo da rua de minha santa, a Avenida Madre Leônia. Visito-as sempre.
Dr. Google me informa que a mangueira (Mangifera indica) é uma árvore originária da Índia e foi trazida ao Brasil pelos portugueses, na época da colonização. Considerada a maior árvore frutífera do mundo, só não tem um simbolismo maior que o da figueira bíblica.
Quando meu bisavô português e seu irmão foram deixados sozinhos no Brasil, com sete e dez anos de idade, estavam em Belém do Pará, conhecida como Cidade das Mangueiras. Imagino que o garoto Antônio Costa algum dia buscou a sombra de uma dessas acolhedoras árvores para se proteger e ficar sozinho com seus pensamentos. Talvez se explique aí um pouco do meu apreço pelas mangueiras.
Antigamente existia uma lenda de que misturar manga com leite poderia levar à morte. Desconheço a origem do mito (provavelmente, algo da época da escravidão), mas meu pai conseguiu desfazê-lo empiricamente: comeu uma manga madura e tomou um copo de leite em seguida para provar que não havia problema algum nisso. De qualquer modo, prefiro evitar a combinação até hoje.
Outra pessoa em que penso quando penso em mangas é o meu querido Vô Briguet. O ex-juiz de futebol e ex-pintor de carros, Moro dos gramados e Matisse das latarias, gostava de trazer mangas maduras e dulcíssimas para os netos. No dia em que adoeceu para morrer no Natal de 1984, carregava as frutas recém-colhidas numa sacola de papel.
Volto ao Santuário e imagino o dia em que o Padre José Kentenich visitou Londrina, há 70 anos. A capela ainda não havia sido construída, mas penso que a mangueira já estava por lá, em sombra, flor e fruto. A alguns passos dela, o Fundador de Schoenstatt abençoava a nossa terra e todos pensavam: Aqui é bom estar.
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