Imagem ilustrativa da imagem A revolução dos canalhas
| Foto: Reprodução



Há 30 anos, quando comecei a fazer Filosofia na USP (não terminei), achava que Ortega y Gasset eram uma dupla, assim como Lennon e McCartney, Chitãozinho e Xororó, Marx e Engels. Muito tempo mais tarde, desfeito o equívoco, descobri que o filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955) não apenas é UMA pessoa como também A pessoa de que precisamos nestes tempos difíceis. Seguem algumas frases e notas extraídas do seu clássico "A Rebelião das Massas", publicado em 1930, e cada vez mais atual:

"O característico do momento é que a alma vulgar, sabendo-se vulgar, tem a audácia de afirmar o direito à vulgaridade e o impõe em toda parte."

"A massa sufoca tudo que é diferente, magnânimo, individual, qualificado e seleto. Quem não for como todo mundo, quem não pensar como todo mundo, corre o risco de ser eliminado."

"De tanto o mundo e a vida se mostrarem abertos ao homem medíocre, a sua alma se fechou."

"Sentimos, os homens atuais, que de repente ficamos sozinhos sobre a terra; que os mortos não morreram só de brincadeira, mas completamente; que já não podem nos ajudar. O resto do espírito tradicional se evaporou. Os modelos, as normas, as pautas não nos servem. Temos que resolver nossos problemas sem a colaboração ativa do passado, em pleno atualismo — sejam eles de arte, de ciência ou de política."

"Viver é se sentir fatalmente forçado a exercer a liberdade, a decidir o que vamos ser neste mundo. Nossa atividade de decisão não descansa um instante sequer. Mesmo quando, desesperados, nos abandonamos ao que vier, estamos decidindo não decidir. (...) Mas o que decide é o nosso caráter."

"O que antes era considerado um benefício da sorte, que inspirava humilde gratidão ao destino, converteu-se em um direito pelo qual não se agradece, mas que se exige."

"A revolução não é a sublevação contra a ordem preexistente, mas a implantação de uma nova ordem que tergiversa a tradicional."

"O acanalhamento não é outra coisa senão a aceitação de uma irregularidade como estado habitual e constituído. Como não é possível converter em sã normalidade o que é criminoso e anormal em sua essência, o indivíduo opta por se adaptar ao indevido, fazendo-se completamente homogêneo ao crime ou à irregularidade que carrega. É um mecanismo parecido com o enunciado pelo adágio popular: "Uma mentira gera outras cem".

"Quando o homem vulgar se depara com esse mundo técnico (...), crê que a natureza o produziu, sem jamais pensar nos esforços geniais de indivíduos excelentes que a sua criação pressupõe. Admitirá menos ainda a ideia de que todas essas facilidades continuam se apoiando em certas virtudes difíceis dos homens, cuja menor falha arruinaria rapidamente a magnífica construção."

Quererão ver, e descobrirão que estão cegos.
Quererão ouvir, e descobrirão que estão surdos.
Quererão pensar, e descobrirão que estão loucos.

Fale com o colunista: [email protected]

mockup