A primeira voz de Londrina
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sexta-feira, 07 de outubro de 2016
por Paulo Briguet 

Feche os olhos, amigo leitor, e tente imaginar os sons de Londrina nos anos 30. O vento nas folhas das árvores. A fala dos pioneiros. Os passos sobre a poeira e a lama. A serra, o martelo, a enxada. O rumor dos córregos. O trem. Os cavalos. As carroças. O sino da igreja. De repente, você ouve música: é o Coral Santa Cecília conversando com Deus.
O Coral, que inicialmente não tinha nome, começou a cantar em 20 de novembro de 1936. Portanto, está prestes a completar 80 anos de atividade. É seguramente um dos mais antigos grupos musicais do país, e a mais antiga instituição cultural de Londrina.
A primeira regente do Coral tinha um nome bastante adequado: Irmã Maria Regis. Alemã de nascimento, professora de matemática e música, ela é umas pioneiras do Colégio Mãe de Deus. Ao lado dela estavam as também alemãs Irmã Clarência, a primeira organista, e Irmã Calixta, a primeira violinista. As vozes pioneiras cantavam peças trazidas do Velho Continente, como o Hino de São Joaquim, avô de Jesus e pai de Nossa Senhora.
Na Catedral, converso com as cantoras Elysabeth da Silva Luelsdorf e Marlene Furquini. Todos os domingos você poderá ouvi-las na missa das 10h30. O Coral Santa Cecília hoje tem 43 integrantes de 15 a 88 anos e é regido pelo maestro Luiz Francisco Fontanaro.
Dona Beth canta no Coral há 75 anos. Aluna de uma das primeiras turmas do Colégio Mãe de Deus, ela ouvia as músicas de Francisco Alves e Vicente Celestino que tocavam pelo alto-falante da igreja matriz de Londrina, hoje Catedral. Logo descobriram que ela possuía uma bela voz de contralto e a chamaram para cantar no Coral. Tinha 13 anos quando fez seu primeiro ensaio.
Ela chegou com a família em Londrina no dia 7 de setembro de 1937. O pai trabalhava na estrada de ferro; a mãe cuidava dos seis filhos e cantava. Vieram de Propriá, Sergipe, às margens do Rio São Francisco, fugindo da violência dos cangaceiros. Entre risos, Beth conta-me que seu padrinho, Coronel Constantino, era também padrinho da filha de Lampião. No Norte do Paraná, Beth encontrou a paz e a música.
D. Marlene veio para Londrina com um aninho de idade, trazida pelos pais, procedentes de Jardinópolis (SP). Há 33 anos a idade de Cristo ela conheceu Beth durante um curso de liturgia e entrou para o Coral Santa Cecília, na época regido pelo maestro José Mário Tomal. A maior emoção de todas, para ele, foi cantar no Santuário de Nossa Senhora Aparecida, em 2011, nos 75 anos do Coral.
Agora o Coral Santa Cecília está preparando uma bela apresentação para o aniversário de 80 anos e para o Natal. Os cantores vestirão um figurino bordado com esmero por D. Beth. Patrimônio da cidade, laureado com a Comenda Ouro Verde, o nosso mais antigo grupo musical é semelhante a uma canção que atravessou as décadas e chegou aos nossos ouvidos.
Na manhã deste domingo, mais uma vez, o Coral Santa Cecília estará conversando com Deus através da linguagem universal da música. Uma canção que já dura 80 anos.
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