A oração que salva
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de fevereiro de 2018
Por Paulo Briguet 

Dois amigos que estiveram à beira da morte relatam exatamente a mesma experiência: no hospital, quando já não sabiam se estariam vivos no momento seguinte, só tinham forças para rezar a Ave-Maria. "Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco..."
Eu me lembro deles quando rezo o terço de cada dia. E também me lembro das palavras do professor Olavo de Carvalho em uma de suas aulas: "Se você está orando um terço inteiro, você começa a funcionar num outro ritmo, mais lento e mais permanente e, aos poucos, quem você verdadeiramente é vai aparecendo".
E qual é essa forma pela qual nos aparecemos durante a oração do terço? A forma dos nossos pecados. O verdadeiro eu, livre de todas as máscaras sociais e mentiras que contamos para nós mesmos, surge como um ser esfarrapado diante da perfeição de Deus. A Mãe de Jesus, preservada da mancha do pecado, pode nos levar assim à presença do Criador. Por isso dizemos, na Ave-Maria: "Rogai por nós, pecadores..."
"Tat twan asi", diz a antiquíssima expressão em sânscrito. Tu és isto. Tu és isto, e não aquela foto sorridente no Facebook ou no Instagram. Você é muito diferente do que isto que você chama de "Eu" quase todo o tempo; no momento da oração, você encontra a identidade profunda da qual o mundo tenta fazer a gente desviar a todo instante, com distrações, provocações, reclames e cantos de sereia. Vivemos, na maior parte do tempo, combatendo moscas de aço que nos fazem esquecer do realmente essencial. É o que Robert Musil chamava de "segunda realidade", que hoje aparece comumente na forma de materialismo, prazer e ideologia. A segunda realidade é capaz de destruir o mundo; mas, muito pior do que isso, ela pode destruir VOCÊ pela eternidade.
Por isso, a oração é uma arma. Uma arma poderosa. Cada terço é composto por cinco mistérios da vida de Jesus; ao meditar sobre eles, você acabará percebendo que a história de Cristo como história original da humanidade; todas as outras, ocorridas antes ou depois, são derivadas. Cada mistério se inicia com a recitação do Pai-Nosso, seguida de dez Ave-Marias e um Glória ao Pai. Um terço completo forma um Rosário, com 150 Ave-Marias e e esse número corresponde exatamente ao número de Salmos judaicos da Bíblia.
Na época em que São Domingos começou a propagar a oração do Santo Rosário, a grande maioria das pessoas não sabia ler e escrever. Hoje, a oração do Rosário continua igualmente necessária, porque a multidão de analfabetos espirituais só faz crescer, em todas as classes sociais, em todas as sociedades, em todo o mundo.
Um dos frutos mais preciosos da oração é o que o professor Olavo chama de "perfeito arrependimento". Ao contemplar seus próprios pecados sem o filtro das exigências mundanas, você adquire a consciência da imortalidade da alma, e descobre que o perdão é o mais valioso presente de Deus. Por isso, a Ave-Maria se encerra como uma pequena extrema-unção ou Kaddish: "Agora e na hora da nossa morte".
Hoje eu não tenho dúvidas de que aquela pequena oração salvou a vida de meus dois amigos e está salvando a minha.
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