Imagem ilustrativa da imagem A noite iluminada dos livros
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1. Disse-me certa vez a querida Cidinha Baracat, minha professora de português na adolescência: "Se Fernando Pessoa obteve segundo lugar em um concurso de poesia, quem somos nós para exigir reconhecimento pelo que fazemos?" Nunca me esqueci dessa frase.

2. Caiu-me em mãos, graças à generosidade do amigo Francisco Spisla, um pequeno volume de Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.), um dos maiores intelectos da Antiguidade latina. O livrinho reúne dois textos do grande filósofo e orador: "Da Velhice" e "O Sonho de Cipião", traduzidos pelo Padre Luiz Feracine. Neste segundo texto, o pai e o avô de Públio Cornélio Cipião aparecem a ele em sonho para o orientá-lo sobre as responsabilidades da vida. Diz o pai de Cipião, que com 35 anos se preparava para difíceis missões bélicas:

"Como os outros viventes honestos, Públio, haveis de manter a alma na prisão do corpo de modo que, sem a ordem daquele de quem a recebestes, não podeis emigrar da vida entre os homens sem dar a impressão de fugir do projeto existencial conferido pelo próprio deus. Foi assim que procedeu aquele Cipião, teu avô, e eu que te gerei. De igual modo cultiva a justiça e a liberdade que devem ser manifestas no relacionamento com os presentes e amigos, mas, com empenho de máxima sacralidade, em relação à pátria".

Com essas palavras e outras reflexões sobre a imortalidade da alma e a vastidão do universo, Cícero antecipa, de certa forma, alguns aspectos da cosmovisão cristã que viria mais tarde, quando o deus de Cícero se revelaria o Deus Trino. Não por acaso, Cícero era lido com admiração por Santo Agostinho.

3. Outro amigo me mostrou um texto intitulado "Diógenes, o cínico que calou Platão". Há controvérsias sobre a veracidade desse título. No volume III da sua magistral "História da Filosofia Antiga", Giovanni Reale menciona em nota de rodapé um encontro entre o fundador da Academia de Atenas e o pensador da Escola Cínica, conhecido pela alcunha de Diógenes O Cão:

"Discorrendo Platão sobre as Ideias, e usando 'mesidade' e 'copidade' em vez de 'mesa' e 'copo', Diógenes disse: 'Quanto a mim, Platão, vejo a mesa e o copo, mas as Ideias de mesa e de copo, não as vejo'. E Platão: 'É certo. Tens olhos para ver o copo e a mesa: não tens a mente para ver as Ideias de mesa e de copo'".

4. Lendo o "Diário da Noite Iluminada", do escritor brasileiro Josué Montello, deparo com uma bela declaração de amor ao ofício das letras. Ao concluir um novo livro e tê-lo pronto em mãos, Montello folheava-o, relia alguns trechos e colocava na estante, dizendo:

"Agora, trata de cumprir o teu destino. Serás louvado por uns, injuriado por outros, até que te deixem, quieto, no teu vão de estante. É esse o destino de todos. Tanto os de Goethe quanto os de João Fernandes. Tua verdadeira glória, se acaso a tiveres, ocorrerá à noite, no silêncio da casa, quando alguém te vier buscar para que sejas seu companheiro de vigília. Vai. Que Deus te proteja. E te dê essa noite".

5. Se até o livro de Fernando Pessoa ficou em segundo lugar, qual será o destino destas minhas crônicas?

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