A mulher que dá à luz
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 04 de maio de 2017
por Paulo Briguet 
A primeira coisa que Deus fez foi a luz. Não sou eu que estou dizendo, é o Livro do Gênesis: "Deus disse: Faça-se a luz! E a luz foi feita. Deus viu que que a luz era boa, e separou a luz das trevas". A luz, portanto, é a primeira manifestação daquilo que chamamos realidade. O primeiro passo para encontrar Deus é reconhecer a realidade e amá-la. Quem não ama a verdade não pode amar o próximo, pois vive nas trevas: como enxergar a face do outro?
Por isso, como é belo o ofício do fotógrafo! Fotografar quer dizer literalmente "escrever com a luz". Cada imagem feita pela câmera é uma reverência ao primeiro momento da criação. Aqui na FOLHA temos vários mestres da fotografia, artistas capazes de extrair as mais belas imagens mesmo na efêmera realidade cotidiana. Mas nem só de jornalismo vive a fotografia. Outro dia tive uma longa conversa com Angelita Santini Niedziejko, que vem se dedicando a um outro tipo de abordagem da arte fotográfica: ela se especializou em fotografar a esperança.
Quase todas as fotos recentes de Angelita têm sido feitas no Jardim Nova Esperança, comunidade pobre da zona sul de Londrina, atendida por projetos sociais da Igreja Católica. "Acho importante o trabalho jornalístico de mostrar a realidade dos problemas sociais, mas meu enfoque é diferente", diz a fotógrafa, que realiza um trabalho voluntário no bairro. Nos rostos de moradores do Nova Esperança, Angelita busca a beleza, a fé, a alegria esses frutos que brotam da árvore da vida mesmo sob as condições mais difíceis.

Angelita iniciou sua busca pela beleza das coisas simples fotografando cenas da própria família e, como trabalho de pós-graduação, os cômodos da casa em que viveu Madre Leônia Milito, a futura santa de Londrina. Uma anotação de Madre Leônia em seu Diário Espiritual, feita em abril de 1975, serve como um comentário antecipado ao trabalho de Angelita: "A minha vida é toda do Senhor. Uma vida intensa feita de pequenas e grandes coisas. Uma vida oculta por amor consumida. É por livre escolha que aceitei viver, até a morte, esta vida de doação a Deus".
Neste mês de Maria, quando se completam 100 anos da aparição de Fátima, é impossível não pensar na luz a luz vista por três pastorzinhos portugueses e pela multidão de fiéis que assistiu à dança do Sol, prenúncio da imagem bíblica da "mulher vestida de Sol", encontrada no Livro do Apocalipse. É também impossível não pensar nas mães.
Mãe é aquela que dá à luz; fotógrafo é aquele que dá a luz. Angelita é mãe e fotógrafa. Em ambos os casos, testemunhamos o milagre da vida. Nesta caminhada pela Avenida Paraná, muitas vezes o colunista é levado a tratar de assuntos sombrios e até mesmo nefastos. Mas vocês, meus caros sete leitores, podem ter certeza: o que mais alegra é falar da luz que envolve e ama todas as coisas. Olhem bem para os três personagens da foto. Ali está ela a luz.


