Imagem ilustrativa da imagem À luz do milagre
| Foto: Gil Rocha Manoel



Em alguma noite do século XVII, o filósofo e matemático francês René Descartes dormiu e teve um sonho terrível. Sonhou que nada do que existia no universo era real, mas fruto da mente de um gênio maligno, cujo único propósito era enganá-lo a todo instante. Desse pesadelo, nasceu boa parte da ciência moderna — a partir do famoso princípio "Penso, logo existo" —, mas também foram lançadas sementes para o solipsismo, doutrina segundo a qual o "eu" é a única realidade existente no universo. A tragédia ocorre quando a ciência e o solipsismo se confundem na mente da mesma pessoa ou coletividade.

Em agosto de 1914, poucos dias após a deflagração da Primeira Guerra Mundial, o escritor tcheco Franz Kafka começou a escrever "O Processo", uma das obras simultaneamente mais belas e sombrias da literatura universal. O romance conta a história de Josef K., que na manhã do seu aniversário de 30 anos é informado de que está sendo processado judicialmente, embora não saiba de que crime o acusam.

Em setembro de 1945, após ser libertado do campo de concentração de Dachau, o médico austríaco Viktor Frankl descobriu que seus pais, seu irmão e sua esposa grávida haviam sido mortos pelo nazismo. Por nove dias, ele se trancou no gabinete de trabalho e escreveu "Em Busca de Sentido", um relato de sua experiência no holocausto. A obra se tornaria um dos livros de psicologia mais importantes e conhecidos do nosso tempo.

Algumas linhas no final de "O Processo" sinalizam uma esperança quase milagrosa. A passagem foi observada no estudo de Louis Begley sobre a vida e a obra de Kafka. Conduzido à força por seus algozes, o protagonista Josef K. tem uma visão absolutamente inesperada: "Como uma luz que tremula, as folhas de uma janela abriram-se ali de par em par, uma pessoa que a distância e a altura tornavam fraca e fina inclinou-se de um golpe para frente e esticou os braços mais para a frente ainda. Quem era? Um amigo? Uma pessoa de bem? Alguém que participava? Alguém que queria ajudar? Era apenas um? Eram todos? Havia ainda possibilidade de ajuda?"

Numa passagem de "Em Busca de Sentido", Frankl escreve: "Estás na vala trabalhando. O crepúsculo que te envolve é cor-de-cinza, o céu é cinzento, cinzenta a neve no pálido lusco-fusco, os trapos dos teus companheiros são cinzentos, e também os semblantes deles são cor-de-cinza. Retomas outra vez o diálogo com a pessoa amada. Pela milésima vez lanças rumo ao Sol teu lamento e tua interrogação. Buscas ardentemente uma resposta, queres saber o sentido do teu sofrimento e do teu sacrifício. (…) Nesse mesmo instante, acende-se ao longe uma luz, na janela de uma distante morada camponesa, postada feito bastidor à frente do horizonte, em meio à desolada madrugada bávara — et lux in tenebris lucet, e a luz resplandece nas trevas".

Todos os dias eu vejo essa luz de Kafka e Frankl, a luz do milagre, no sol que se reflete nas janelas londrinenses. E mais uma vez acredito que o gênio enganador não prevalecerá.


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