A invasão está no ar
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sexta-feira, 04 de novembro de 2016
por Paulo Briguet 

No começo dos anos 90, quando eu era um simples morador da República da Humaitá, as ondas da Rádio UEL eram uma fonte de consolação para minha alma atormentada. Lá eu ouvia os programas de música clássica da Fernanda Jiran, as crônicas de Ivan Lessa, as canções de Tom Jobim, Noel Rosa e Paulinho da Viola... Durante alguns anos, mantive uma coluna de crônicas radiofônicas intitulada "O Mundo é Pequeno", trabalho voluntário que fiz com grande entusiasmo e, por que não dizer, amor.
Mesmo em minha fase mais radical de militante esquerdista, quando invadimos a Reitoria da UEL, jamais se cogitou fazer o mesmo com a rádio universitária, pois entendíamos que a emissora pertence à comunidade inteira, não ao movimento estudantil. E nesse ponto tínhamos razão.
No Dia de Finados, como você já deve saber, a Rádio UEL foi invadida por um pequeno grupo de estudantes de Comunicação. Eles tomaram posse da rádio para protestar contra a PEC 241, o governador Beto Richa e o presidente Michel Temer. No mundo da Lua em que vivem esses jovens, a saída constitucional da sra. Dilma Rousseff, a mulher que destruiu o País para se reeleger, foi "um golpe das elites". Provavelmente eles chamariam você, caro leitor, de "fascista" e "golpista" por pensar diferente.
Ainda que o motivo da invasão não fosse uma grande mentira e é a invasão seria inaceitável. Recuso-me a usar o termo "ocupação" para definir um ato que, em si só, é uma afronta à lei, à democracia e à comunidade londrinense. Sou um escritor avesso a eufemismos; o que tenho para dizer, digo na lata.
Apesar do discurso em favor do patrimônio público, os militantes-estudantes querem, na verdade, "privatizar" a rádio para uso de um movimento político. Conversei com dois funcionários que há mais de 25 anos trabalham na rádio, e que dedicaram toda sua vida à emissora. Eles me disseram que nunca se sentiram tão desrespeitados.
O diretor da Rádio UEL, Osmani Costa, meu amigo desde 1989, é um homem de esquerda. Quem o conhece sabe do amor que ele tem por essa rádio, sabe da sua dedicação e lealdade. Conversei com o Osmani no dia de invasão, e ele estava preocupadíssimo com os riscos ao patrimônio público após essa absurda invasão. Estranhou que a invasão tenha ocorrido um dia após o compromisso da rádio, firmado com os sindicatos da UEL, de conceder amplo espaço na programação da rádio ao movimento grevista. Espero que, no momento em que você estiver lendo estas linhas, a emissora já tenha sido devolvida aos seus gestores.
A sociedade não pode permitir que esse tipo de abuso se torne um fato banal. Ontem foram as escolas; hoje é a rádio; amanhã pode ser a sua empresa, a sua igreja, a sua casa. Para quem acha que estou exagerando, basta ler o que os próprios invasores escreveram em seus cartazes: "Ocupe os meios de comunicação".
O clima de invasão está no ar, e vocês sabem a quem isso interessa. Ou a sociedade reage, ou se tornará refém.
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