A intolerância e seus frutos podres

Por Gabriel Giannattasio
Há quase um ano atrás um grupo formado por professores, escritores e alunos deu início a um conjunto de atividades, que deveriam se desenvolver nas dependências do Centro de Letras e Ciências Humanas da na Universidade Estadual de Londrina, nomeadas "UEL, A Casa da Tolerância". À época lançamos uma espécie de diagnóstico que dizia:
"Sem dúvida alguma a palavra do momento político e cultural de nossa sociedade é Tolerância. É em torno desta palavra que a atividade de extensão está sendo preparada. Diagnosticamos que a sociedade brasileira está radicalmente dividida, bem como a sociedade londrinense. O diálogo está, profundamente, contaminado numa conversação de surdos-mudos. E, infelizmente, a Universidade, incluso aí a Universidade Estadual de Londrina, tem sido vista como uma instituição que assumiu uma posição beligerante, adotando, aos olhos de parte da sociedade um lado da trincheira. É preciso que a universidade volte a desempenhar seu papel de espaço privilegiado da tolerância. Que tenha a sabedoria restauradora das fraturas desempenhando seu papel de mediação. É preciso que a Universidade volte a ser o palco do diálogo, o espaço da livre manifestação das ideias. É preciso que ela, Universidade, deixe de ser parte e respeite a sua própria tradição inscrita em seu nome: a palavra Universidade vem do latim Universitas e significa Universalidade, o todo, e ainda o universo, o conjunto das coisas."
O projeto teve início em novembro de 2017 com a apresentação, no campus da UEL, do filme de Josias Teófilo intitulado O Jardim das aflições. E deveria ter sequência durante o ano de 2018 com uma série de atividades programadas e amplamente divulgadas, dentre as quais se previa a realização de mesas redondas, palestras, conferências e mesas de debate em torno de temas polêmicos da nossa contemporaneidade.
Em 15 de fevereiro deste ano encaminhamos a todos os departamentos do CLCH a saber, História, Ciências Sociais, Filosofia e Letras e do CECA a saber, departamento de Educação uma carta convite solicitando que os departamentos e/ou professores especializados nos temas em debate aceitassem compor as mesas de discussões. Além disto, contatamos vários professores destes centros, dirigindo a eles convites pessoais para compor as mesas de trabalho. É preciso registrar que recebemos um manifesto apoio de vários professores dos departamentos de Letras e Filosofia e, ainda, tivemos a grata satisfação da presença do professor José Fernandes Weber, docente do departamento de Filosofia da UEL, na abertura dos trabalhos do evento.
As atividades programadas para o primeiro semestre foram realizadas com sucesso, apesar de terem sofrido um velado boicote de parte significativa da comunidade acadêmica. Boicote que se manifestou através de intervenções artísticas no recinto e no horário da atividade programada, além de eventos paralelos que pululavam de forma imprevista nos respectivos centros CLCH e CECA, coincidentemente nos mesmos horários de nossas atividades. Até aí, legítima manifestação.
Portanto, notávamos já naquele momento uma certa indisposição de parte significativa do corpo docente de se integrarem a uma proposta cujo objetivo maior era, antes de tudo, resgatar o espírito que faz de nossa instituição ser chamada de Universitas.
Para a programação do segundo semestre particularmente, para aquelas atividades que pressupunham o confronto de ideias, ou seja, as mesas de debate aguardamos uma resposta aos convites que foram dirigidos seja aos departamentos, seja aos professores até o final do mês de julho. Infelizmente esta resposta nunca veio. Nenhuma resposta, nem ao menos um gentil agradecimento, claro sinal de que, mais do que uma mera incompreensão do papel da universidade, faltava-lhes uma certa dose de educação e cortesia.
Diante deste silêncio resolvemos cancelar as mesas de debates, pois não queríamos repetir uma prática tão corriqueira e disseminada nas atividades programadas do CLCH, a saber, o de realizar debates em torno de temas contemporâneos nos quais só há um convidado ou, quando muito, dois convidados que defendem o mesmo ponto de vista.
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No dia 6 de setembro de 2018 o candidato a Presidência da República Jair Messias Bolsonaro foi esfaqueado por um cidadão de nome Adélio Bispo de Oliveira. A imprensa destaca ser este um fato inédito na recente história democrática brasileira. Muitos, mas muitos, se apressam em chamar a nossa atenção para um possível desequilíbrio mental do autor da tentativa de homicídio. Praticamente todos os presidenciáveis, de todos os matizes ideológicos, se solidarizam com Bolsonaro e chamam a atenção para os níveis de intolerância que estamos alcançando.
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Diante dos episódios narrados me pergunto: o que há em comum entre o silêncio manifesto ou o boicote latente de parte significativa do corpo docente das áreas de humanas de nossa Universidade e a facada desferida por Adélio Bispo de Oliveira? A mão que segura o punhal hoje é a mesma que ontem se recusava a dialogar com quem pensa diferente. A mão que segura o punhal hoje é a mesma que repetia insistentemente, ao longo dos últimos tempos, não me sento à mesma mesa que fulano, que sicrano ou que beltrano. A mão que segura o punhal hoje tem muitos nomes e muitas faces. Deixemos de tratar Adélio como um tresloucado que agiu intempestivamente, isto pode até livrar-nos da culpa e da má consciência, mas a sociedade é, no final das contas, o corpo da vítima e a mão do assassino, a um só tempo. A violência na política começa onde termina a linguagem política. A violência não é linguagem política, pelo contrário, ela é a manifestação da sua falência. O punhal surge quando damos as costas à palavra, a faca deixa, assim, de ser uma metáfora cortante para se tornar lâmina assassina.
[Gabriel Giannattasio é professor do departamento de História da UEL e coordenador do projeto de extensão UEL, A Casa da Tolerância]





