A imitação do inimigo
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 27 de abril de 2018
Por Paulo Briguet 

Vivemos um tempo de violência e escândalo permanentes. Tempo em que o ódio e a divisão são cultivados no coração e rejeitados pela boca. Tempo em que nada é sagrado nem solene. Mais do que nunca, precisamos da lucidez de um homem chamado René Girard. A seguir, algumas reflexões do grande pensador francês morto em 2015 um gigante em nosso tempo de pequenez moral:
SOBRE AMOR E ÓDIO:
"A fragilidade e a mobilidade de nossas relações são o fundamento indispensável não somente do pior em nossa humanidade, mas do melhor. Se nossas relações não pudessem transtornar-se, tampouco poderiam reacomodar-se. Para que o amor verdadeiro seja possível, é preciso que o ódio também o seja."
SOBRE "DAR A OUTRA FACE":
A maioria dos modernos vê nas recomendações de Jesus (...)àquele que te fere na face direita oferece-lhe também a esquerda uma utopia pacifista manifestamente ingênua e até condenável, porque inutilmente servil e provavelmente masoquista. Essa interpretação carrega as marcas da ideologia dos que veem programas políticos por toda parte. (...) Para bem compreender o texto do Evangelho de São Mateus, podemos aproximá-lo de uma frase em que São Paulo afirma que renunciar às represálias é pôr carvões ardentes na cabeça do adversário ou, dito de outra maneira, é pôr este último numa situação moral impossível."
SOBRE A VITIMIZAÇÃO:
"O erro vem das ideologias: a ideia de que tudo ou é bom ou é mau. A revelação da inocência da vítima é a verdadeira aquisição cristã que se desenvolve em nossa época, mas no curso do século passado ela pôde tornar-se o motor de novos fenômenos vitimistas, tornando a sua utilização equívoca. (...) A reivindicação generalizada do sentimento vitimista termina por se voltar contra a lei natural e contra toda lei que regule as relações humanas: se é proibido proibir, então posso desejar o que o meu próximo possui e ignorar o Décimo Mandamento."
SOBRE O BODE EXPIATÓRIO:
"Em vez de ser ele mesmo outro bode expiatório sacralizado, Cristo se torna bode expiatório para dessacralizar os que vieram antes dele, impedindo que os que vierem depois sejam sacralizados. (...) Aos bodes expiatórios parciais, terrestres, temporários e injustos das religiões terrestres opõe-se o bode expiatório perfeito, ao mesmo tempo plenamente humano e plenamente divino."
SOBRE IMITAR O INIMIGO:
"Os homens estão expostos a um contágio violento que desemboca, frequentemente, em ciclos de vingança, em violências em cadeia evidentemente semelhantes porque todos se imitam. O verdadeiro segredo do conflito e da violência é a imitação desejante, o desejo mimético e as rivalidades ferozes que ele engendra."
Esta última frase de René Girard encerra um ensinamento valioso para para todos nós. Antes de fazer ou dizer alguma coisa, certifique-se de que você NÃO está imitando o seu oponente. Afinal, Jesus disse: "Amai os vossos inimigos" e não "Imitai os vossos inimigos".
(Frases extraídas do livro "Por quem o escândalo vem", de René Girard.)
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