Imagem ilustrativa da imagem A hora da Lei Rua Neles


Minha vida é o enfrentamento diário com as palavras a fim de escolher aquelas que merecem ser ditas. O simples conhecimento dos termos não significa absolutamente nada. Lembremos o que Millôr Fernandes dizia sobre o dicionarista Antônio Hoauiss (que Paulo Francis chamava de "Uais"): "Ele conhece todas as palavras da língua portuguesa, só não sabe juntá-las".

Após uma longa meditação sobre o espetáculo de horrores em que se converteu a política brasileira, especialmente em nível federal, digo com todas as letras:

— Fora, Temer.

Reparem que não fiz a mera junção entre as palavras "Fora" e "Temer", mas também coloquei uma vírgula entre elas. Essa vírgula — e que lasquem os marcusbagnus! — faz toda a diferença. Aqueles que não separam o verbo do vocativo revelam, além do desconhecimento da norma culta, o secreto desejo de que o Mordomo de Filme de Terror não apenas vá embora, como seja substituído pelo Cachaceiro dos Mortadelas ou pela Louca da Mandioca.

Em suma, dizer "Fora, Temer" é totalmente diferente de dizer "foratemer". Penso, aliás, que é o contrário.

Em termos econômicos, Temer fez quase tudo certo até agora (com a exceção do aumento para o funcionalismo). A PEC 241 (agora 55) é essencial para a sobrevivência do Brasil, como sabe qualquer um que tenha dois neurônios a mais que um analista do Projac. A reforma de Previdência, se não resolve o problema, pelo menos adia o desastre por alguns anos.

Mas, onde foi então que Temer errou, além do fato de ceder à pressão dos gângsteres peemedebistas? Errou no campo cultural. A economia de um país como o Brasil, cedo ou tarde, demonstrará sinais de recuperação. Nós não somos a Venezuela, somos um país continental com imensas potencialidades de desenvolvimento.

Mas de nada adianta crescer economicamente se não houver uma revolução conservadora e civilizatória nas instituições culturais e educacionais. Lembro-me que, no dia seguinte à posse de Temer, a medida mais importante do governo, a meu ver, não era nenhuma decisão econômica ou diplomática, mas a extinção do Ministério da Cultura. Sempre disse a quem quis ouvir: o MinC é uma excrescência burocrática. A Lei Rouanet — em que os projetos sérios e realmente importantes são exceções — deveria ser substituída pela Lei Rua Neles.

Como já observou minha amiga Paula Rosiska, é irônico que o escândalo fatal para a credibilidade do governo Temer tenha começado exatamente no Ministério da Cultura, que o presidente decidiu ressuscitar após os protestos e ocupações de artistas e intelectuais chapa-branca. Não estou dizendo que o ex-ministro Calero tenha tido culpa no que aconteceu; pelo contrário, ele teve uma atitude honrada ao denunciar o sr. Geddel. Para evitar que escândalos desse tipo aconteçam, no entanto, é preciso desmontar, privatizar, desligar para sempre a imensa máquina burocrática que alimenta a cultura chapa-branca brasileira. Volto a dizer: não é preciso acabar com a Rouanet, é preciso instituir a Rua Neles.

Horizonte cultural é a vírgula essencial que falta no governo Temer, que agora está por um fio, sustentado unicamente no campo da racionalidade econômica. Passar a mão na cabeça dos militantes e botar o Roberto Freire no MinC não vai resolver o problema, vai apenas aumentar a agonia de Temer e sua turma.

O estamento burocrático brasileiro chegou a uma situação-limite. Fora, Temer. Fora, Maia. Fora, Renan. O povo brasileiro não aceita mais nenhum de vocês. Uma solução seria a ministra Carmen Lúcia assumir interinamente o governo e convocar eleições gerais. Isso, claro, com Lula na cadeia. Rua Neles — e cela pra ele.

mockup