Imagem ilustrativa da imagem A folha dobrada
| Foto: Shutterstock


Certa vez, o grande escritor judeu-polonês Isaac Bashevis Singer disse numa entrevista: "Quando morre uma pessoa que é próxima de você, ela se distancia; com o passar do tempo, ela se torna mais próxima. Depois de muitos anos, chega um momento em que você está quase vivendo com ela. Foi o que aconteceu comigo. A Polônia está mais próxima de mim agora do que estava na época da minha juventude".

Os anos vão passando e a cada dia eu confirmo que Singer estava coberto de razão. É como se eles estivessem aqui, ao meu lado.

Aracy ensina o Pedro a andar. Do forno, vem um cheiro delicioso, um cheiro de infância; ela acabou de preparar um bolo de laranja para a festinha dos filhos. Eu e a Fernanda fazemos aniversário com apenas uma semana de diferença, o que nos torna irmãos de sangue e de julho. Aracy era professora de história; ela escreveu a nossa.

No quarto, Vó Maria reza para Nossa Senhora proteger as filhas e os netos. Ela orava em voz baixa; certa manhã, ao se levantar depois da última Ave-Maria, derramou um copo de água sobre uns papéis de rascunho que estavam sobre a mesa. Naquele dia chorou muito.

— Eu não quero atrapalhar o seu serviço, filho...

A muito custo, eu a convenci de que aqueles papéis não valiam nada; as crônicas prontas já estavam no computador. Quando finalmente Maria parou de chorar, eu vi a imagem de Nossa Senhora Aparecida — a mesma imagem que está sobre minha mesa agora.

Vô Briguet chega em casa; traz balas Chita nos bolsos, para agradar os netos. Depois de abrir a porta da geladeira para conferir se não está faltando nada, conta uma piada para as crianças — "De salão, Oreste, de salão!", adverte Maria — e comenta os últimos resultados do Palmeiras e do Corinthians. No caminho para casa, passou pela lotérica. Apostava todas as semanas, mas só fez os 13 pontos uma vez — quando se esqueceu de apostar!

Ele lutou por São Paulo na Revolução Constitucionalista. Muitos anos depois, depois de uma batalha para provar que ele era ele mesmo, conseguiu uma modestíssima pensão como veterano de 32. Guardo comigo, aqui bem perto, a medalha de guerra do Vô Briguet.

Vou então à varanda — e encontro Paulo. Ele fuma e lê o jornal até a última página. Quando termina a leitura, começa a cantar a velha canção do Largo São Francisco:

"Quando se sente bater
No peito a heroica pancada
Quando se sente bater
No peito a heroica pancada
Deixa-se a folha dobrada
Enquanto se vai morrer...
Deixa-se a folha dobrada
Enquanto se vai morrer..."

Quando meu pai nos deixou, havia um livro de Isaac Bashevis Singer na sua cabeceira.

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