A figueira que salvou meu amigo
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 14 de setembro de 2018
Paulo Briguet 
"Assim como contemplas com prazer os figos bons, assim também olharei favoravelmente os desterrados de Judá."
(Jeremias 24, 5)
Reencontrei o João. Há algum tempo não o via, e que boa surpresa foi vê-lo! Parecia muito, mas muito mais jovem e jovial. Fiquei sem impressionado com a mudança: era como se eu tivesse visto, meses atrás, o pai de João, não ele.
Então o João me contou sua história.
No ano passado, meu amigo estava mergulhado numa profunda depressão. Tinha crises de pânico e acordava no meio da noite, perseguido pelas sombras. Eu sei como é isso, pois já passei por situações parecidas.
O trabalho começou a se tornar um fardo, um dever difícil de suportar. A doença que afetou João não escolhe classe social; executivos de grandes empresas conhecem a crise denominada "síndrome de segunda-feira", na qual a pessoa fica em pânico com a possibilidade de enfrentar as mais triviais tarefas do dia a dia. Isso não é brincadeira; isso pode matar.
Felizmente, João contou com o apoio da família e dos amigos, que compreenderam o seu drama e se dispuseram a ajudar, com incansável cuidado, carinho e paciência.
Mesmo com a ajuda das pessoas próximas, a situação do João tornava-se cada vez mais séria. Trocava de medicamento a cada mês; nada funcionava.
Certo dia, ele acordou às cinco da manhã, banhado em suor e angustiado com a perspectiva de enfrentar o dia que estava por nascer. Foi até o quintal de sua casa, onde há uma figueira. O vento da madrugada balançou as folhas da figueira. Foi como se a árvore dissesse:
- Eu estou doente. Cuida de mim, João.
Naquele mesmo dia, João foi a uma loja comprar equipamentos de jardinagem - e começou a cuidar da figueira doente. Descobriu que, por trás das camadas podres e avariadas da árvore, existia uma parte central intacta, por onde corria a seiva da vida.
João foi ao médico e disse que não queria mais trocar de medicamentos. O seu melhor remédio agora estava no quintal. Ali ele também montou, dentro de um velho quartinho de despensa, a sua pequena oficina de marcenaria, onde exercitava uma arte do velho José, que cultivara desde pequeno, e andava esquecida. Enquanto cuidava da figueira, trabalhava a madeira. Logo começaram a surgir bons frutos: figos e móveis.
O chá de figo, o doce de figo e o figo colhido no pé foram os seus melhores remédios, além do acompanhamento médico e do apoio dos amigos. As crises de pânico e melancolia começaram a rarear, enquanto a árvore e os objetos da casa ganhavam vida. João renasceu.
Então um dia João leu no Evangelho a história de Natanael, também chamado Bartolomeu. No princípio, Natanael estava desconfiado daquele nazareno. Em tom de ironia, perguntou a Filipe: "Porventura pode vir boa coisa de Nazaré?". Assim que viu Natanael, porém, Jesus disse: "Antes que Filipe te chamasse, eu te vi quando estavas debaixo da figueira". Assombrado por essas palavras, Natanael iluminou-se em adoração: "Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o rei de Israel!".
Não deve ser por acaso que essa linda história se encontra no Evangelho de João.
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