Imagem ilustrativa da imagem A escadaria do Natal
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As primeiras festas de Natal de minha infância aconteciam na casa de Maria e Oreste, meus avós maternos. Era um sobrado na Rua Brigadeiro Galvão, no bairro operário da Barra Funda, região central de São Paulo. A parte inferior da casa consistia no porão onde Vô Briguet guardava seus instrumentos de trabalho (ele era pintor de automóveis e ex-juiz de futebol). Na parte superior ficava a residência propriamente dita: uma sala, um longo corredor, dois quartos e a cozinha ao fundo. Também havia um quintal, onde brincávamos eu e meus primos (minha irmã Fernanda ainda era bebê). Lembro que Vó Maria, poucos antes do Natal de 1976, colocou um ovo em cima do muro para que Santa Clara fizesse parar de chover.
Tio Álvaro chegou de Araçatuba trazendo no bagageiro da "Decavê" uma grande novidade: a Tubaína Bolinha. Ainda tenho na boca o sabor daquele néctar servido antes da chegada de Jesus. Depois, passamos pela cozinha, onde Vó Maria preparava o delicioso capeletti de Natal. Carrego também aquela deliciosa combinação de aromas que precediam a ceia do Menino. O tempo estava com cara de chuva, mas, conforme a meia-noite se aproximava, as nuvens começaram a se dissipar e nos deixaram entrever as primeiras estrelas.
Dizem que as nossas casas de infância, quando revistas na idade adulta, costumam ser bem menores do que imaginávamos. Não poderei comprovar essa tese com a casa da Rua Brigadeiro Galvão, porque ela foi demolida há muitos anos. Mas o fato é que três elementos daquele sobrado pareciam muito grandes aos meus olhos de menino: o corredor (que começava na sala e terminava na cozinha), o porão (assustador e sombrio, onde só os adultos tinham coragem de ir) e a escadaria.
A escadaria merece um capítulo à parte. Era incrivelmente comprida aos meus olhos. Aquela longa sequência de degraus fazia a conexão entre a rua e a casa, como se esta, embora humilde, estivesse situada em um plano superior da existência. Um dia, animado com a chegada de minha mãe, eu quis descer a escadaria com pressa e acabei rolando todos os degraus. Milagrosamente nenhum osso meu se quebrou. Hoje penso que essa escadaria, levando-me e trazendo-me aos entes queridos, era o próprio milagre. E milagre maior ainda é escrever sobre ela, tantos anos depois.
Agora Vó Maria está lá no Céu, preparando capeletti para os outros anjos de Natal: Mãe, Pai, Vô Briguet, Tia Celina, Tio Vicente, Tio Osvaldo, Tio Alcides, Tia Iracema, Tio Armindo, Tio João, Pai Costa, Mãe Mulata. Penso na escadaria que um dia me levará até eles. E coloco um ovo sobre o muro, não para que cesse de chover, mas para que as lágrimas sejam de alegria.

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