A Divina Comédia de Belchior
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terça-feira, 02 de maio de 2017
por Paulo Briguet 
Que música Belchior estava ouvindo quando morreu? Até agora não sei, mas considero essa informação importante. Como se trata de alguém que viveu da música e destacou-se como o cantor de uma geração, seria bom saber qual a obra clássica que Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, o nosso Belchior, escutava quando partiu para a longa viagem, no último domingo, aos 70 anos.
No tempo de universidade, era impossível passar incólume a Belchior. Se eu tivesse que fazer um filme da minha passagem pela UEL, certamente a trilha sonora teria diversas canções do compositor cearense. No campus das perobas, na República da Humaitá, no antigo Araucana Café Bar, no Clube da Esquina e em outros lugares típicos da nossa geração, ele era uma voz onipresente. Tanto é que eu aprendi não só a tocar suas músicas, como também a imitar sua peculiar dicção com algum sucesso.
Atire a primeira pedra quem tem mais de 40 anos e nunca se identificou com os famosos versos: "Eu sou apenas um rapaz latino-americano/ Sem dinheiro no banco/ Sem parentes importantes/ E vindo do interior..." Numa simples canção, Belchior conseguiu retratar o perfil da multidão de brasileiros que tentaram a sorte na cidade grande. Meu pai, que viveu exatamente essa história, o admirava.

As canções de Belchior misturavam, com bom humor e uma ponta de desespero, os dramas da juventude que vivia entre as recordações do passado rural provinciano e o canto de sereia das metrópoles. Com acuidade psicológica, o cantor aproximava cenários aparentemente incompatíveis: "Minha rede branca/ Meu cachorro ligeiro/ Sertão, olha o Concorde/ Que vem vindo do estrangeiro". Outra peculiaridade de Belchior era "espremer" letras compridas em frases musicais curtas, dando às suas canções um toque de urgência e excentricidade que as aproximavam da fala cotidiana, como se alguém quisesse dizer alguma coisa muito importante dentro de um ônibus urbano lotado. O efeito era, no mínimo, surpreendente.
De maneira quase supersônica, Belchior fez suas principais canções nos anos 70, oscilando depois entre a retrospectiva e o silêncio. Nos últimos anos, decidiu desaparecer. Em 2009, foi encontrado no Uruguai, adaptando suas músicas para o espanhol e traduzindo a "Divina Comédia". É fascinante saber que ele se interessava a tal ponto pela obra-prima de Dante. Não foi por acaso que ele compôs, então, "Divina Comédia Humana". Belchior, com seu nome de mago do Oriente, conhecia o Inferno, o Purgatório e o Paraíso.
Em 2000, eu e meu querido amigo Ranulfo Pedreiro visitávamos Fortaleza e fomos tomar umas cervejas em um bar da praia de Mucuripe. Na hora de pagar a conta, ao som de "Velha Roupa Colorida", avistamos um senhor bigodudo sentado numa mesa repleta de amigos, estilo santa ceia. Belchior sorria: não era um sósia, era ele mesmo. Foi o mais perto que o imitador conseguiu ficar do imitado.
Mas qual era a música, Belchior?


