Que música Belchior estava ouvindo quando morreu? Até agora não sei, mas considero essa informação importante. Como se trata de alguém que viveu da música e destacou-se como o cantor de uma geração, seria bom saber qual a obra clássica que Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, o nosso Belchior, escutava quando partiu para a longa viagem, no último domingo, aos 70 anos.

No tempo de universidade, era impossível passar incólume a Belchior. Se eu tivesse que fazer um filme da minha passagem pela UEL, certamente a trilha sonora teria diversas canções do compositor cearense. No campus das perobas, na República da Humaitá, no antigo Araucana Café Bar, no Clube da Esquina e em outros lugares típicos da nossa geração, ele era uma voz onipresente. Tanto é que eu aprendi não só a tocar suas músicas, como também a imitar sua peculiar dicção com algum sucesso.

Atire a primeira pedra quem tem mais de 40 anos e nunca se identificou com os famosos versos: "Eu sou apenas um rapaz latino-americano/ Sem dinheiro no banco/ Sem parentes importantes/ E vindo do interior..." Numa simples canção, Belchior conseguiu retratar o perfil da multidão de brasileiros que tentaram a sorte na cidade grande. Meu pai, que viveu exatamente essa história, o admirava.

Imagem ilustrativa da imagem A Divina Comédia de Belchior
| Foto: Philips/Divulgação



As canções de Belchior misturavam, com bom humor e uma ponta de desespero, os dramas da juventude que vivia entre as recordações do passado rural provinciano e o canto de sereia das metrópoles. Com acuidade psicológica, o cantor aproximava cenários aparentemente incompatíveis: "Minha rede branca/ Meu cachorro ligeiro/ Sertão, olha o Concorde/ Que vem vindo do estrangeiro". Outra peculiaridade de Belchior era "espremer" letras compridas em frases musicais curtas, dando às suas canções um toque de urgência e excentricidade que as aproximavam da fala cotidiana, como se alguém quisesse dizer alguma coisa muito importante dentro de um ônibus urbano lotado. O efeito era, no mínimo, surpreendente.

De maneira quase supersônica, Belchior fez suas principais canções nos anos 70, oscilando depois entre a retrospectiva e o silêncio. Nos últimos anos, decidiu desaparecer. Em 2009, foi encontrado no Uruguai, adaptando suas músicas para o espanhol e traduzindo a "Divina Comédia". É fascinante saber que ele se interessava a tal ponto pela obra-prima de Dante. Não foi por acaso que ele compôs, então, "Divina Comédia Humana". Belchior, com seu nome de mago do Oriente, conhecia o Inferno, o Purgatório e o Paraíso.

Em 2000, eu e meu querido amigo Ranulfo Pedreiro visitávamos Fortaleza e fomos tomar umas cervejas em um bar da praia de Mucuripe. Na hora de pagar a conta, ao som de "Velha Roupa Colorida", avistamos um senhor bigodudo sentado numa mesa repleta de amigos, estilo santa ceia. Belchior sorria: não era um sósia, era ele mesmo. Foi o mais perto que o imitador conseguiu ficar do imitado.

Mas qual era a música, Belchior?

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