A crônica dos pontos de interrogação
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quinta-feira, 07 de fevereiro de 2019
Paulo Briguet 

O que é isso que me faz estranhar o nome das coisas, e achar que as coisas não pertencem aos seus verdadeiros nomes? O que é isso na quinta-feira? O que é isso nos outros dias? O que é isso na tarde de domingo? O que é isso que me incita a ver o sangue humano nas copas das árvores, o biscoito waffer no teto dos edifícios, o DNA nas escadas de construção? O que é isso que me compele a aproximar a essência da aparência, e depois afastá-las como se fossem o Polo Norte e o Polo Sul? O que é isso que me atrai no movimento dos carros, e nos sons longínquos da minha cidade, e na curva macia do teu pescoço, e no cheiro do meu dia que chega ao fim? O que é isso que me faz ouvir todos os dias a Missa Solene de Beethoven? E o que é isso que me faz supor que determinada modelo só come brócolis? O que é isso que me faz considerar o poeta Herberto Helder como uma espécie de tio desaparecido no além-mar?
E por que amo esta cidade? Por que pensava nos grandes espaços infinitos e no destino das minhas mãos quando vi as luzes de Londrina a teu lado na noite? Por que escrevo incoerências? Por que trabalho tanto sem ver resultado, mesmo sabendo que o resultado virá em algum momento como está vindo agora, aparentemente sem esforço? Por que a natureza das árvores me conta a história de um ancestral que viveu na Península Ibérica há 700 anos, e que também perguntava, perguntava, perguntava - perguntava ao mar e ao monte? Por que o biscoito do café da tarde é um convite à reflexão sobre a linguagem dos enigmas? Por que crio personagens com os nomes de Ricardo Nélson, Pedro Levi, Lia, Sara, Raquel, Alice? Por que o silêncio do telefone me é estranhamente próximo, tal como as explosões de estrelas? E por que me emociono tanto quando você me diz ter lido no jornal que há mais estrelas no Universo do que grãos de areia na superfície da Terra? E por que me sinto feliz ao te contar que nós somos filhos das estrelas, afirmação que curiosamente aproxima a poesia e a ciência, naquele núcleo em que não mais existe aparência nem essência, mas apenas o ser?
O quê? Quem? Quando? Como? Onde? Por quê? Principalmente: E DAÍ?
Saberei um dia responder às minhas perguntas? Conseguirei um dia dizer qualquer coisa que mereça um ponto final? Será que um dia me libertarei das eternas exclamações e reticências? Quando dispensarei as vírgulas, os acentos, as palavras, as letras, os sons, a própria consciência? Terei no futuro a capacidade de ignorar a existência da primeira pessoa, ou mesmo da segunda e da terceira? Conjugarei um verbo fora do tempo? Vencerei o tempo, meu inimigo íntimo?
O que é isso que me confina nos limites desta crônica, sitiado por pontos de interrogação que mais se parecem com a orelha de uma bela mulher ornamentada por um brinco? O que é isso que me permite a crônica, mas não me dá o romance, nem o conto, nem a novela, nem o ensaio, nem uma lista de supermercado? O que é isso que está escrito em todos os meus textos antes que eu comece a escrever? O que é isso que me faz um homem, e um homem estranhamente feliz? O que é isso, Deus, o que é isso?
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