Imagem ilustrativa da imagem A consciência do anticomunista


Nos anos 90, quando eu militava na esquerda, um dos autores que mais me impressionavam era Isaac Deutscher (1907-1967), o grande biógrafo do revolucionário Lev Trotsky. Minha admiração pelo autor judeu-polonês era tamanha que hoje, em retrospectiva, considero que fui mais propriamente um "deutscherista" do que um trotskista. Lembro-me especialmente de um ensaio de Deutscher: "A consciência do ex-comunista". Esse texto não apenas me conquistou pela clareza e contundência do estilo — características do autor —, como acendeu em mim luzes de dúvida sobre a validade da teoria e práxis marxista. No ensaio, Deustcher criticava com veemência alguns escritores que se desiludiram ideologicamente após terríveis experiências com o socialismo real. Dois autores merecem destaque no ensaio de Deustcher: George Orwell (autor de "A Revolução dos Bichos" e "1984") e Arthur Koestler ("O Zero e o Infinito" e "O Iogue e o Comissário"). O impacto foi tão grande que decidi reler as obras dos dois autores: e eles me ajudaram a entender que o comunismo era apenas um outro nome para o genocídio e a escravidão.

Nesta semana, terminei a leitura de "O Filho Radical", autobiografia do escritor americano David Horowitz (1939-). A obra é tão boa que merece um artigo mais extenso. Hoje eu gostaria de destacar um trecho em que David Horowitz fala sobre a sua profunda desilusão com o marxismo durante uma visita à Polônia comunista no final dos anos 80. A Polônia é terra natal de Isaac Deustcher, que foi amigo e mentor de Horowitz nos anos 60, e também o país de origem de seu avô Moishe Horowitz. Veja um trecho das impressões do autor sobre o regime socialista:

"Com algumas centenas de dólares no bolso — o salário de um ano inteiro para a maioria dos poloneses —, eu me sentia rico. Mas, quando saí em busca de uma loja onde pudesse gastar o dinheiro, descobri que não havia nada para comprar. Além de Cracóvia, o único lugar em que eu vi prateleiras tão vazias foi Manágua. Com o equivalente a duas horas de um salário mínimo, em um restaurante com bufê livre, um trabalhador americano poderia saborear uma refeição mais farta, nutritiva e variada do que no restaurante mais fino da Polônia. Antes, porém, de os comunistas terem invadido e canibalizado as riquezas, a economia do país se equiparava à da Itália e à da Espanha. (...) O socialismo torna o homem mais pobre do que ele jamais imaginou. O cidadão polonês é mais pobre hoje, em 1989, do que meu avô era quando chegou aos Estados Unidos, há 50 anos."

David Horowitz tornou-se conservador e um dos maiores implacáveis adversários da esquerda americana após os 40 anos de idade. Ainda mais impressionante e admirável, creio eu, é ver a tomada de consciência ideológica de uma pessoa com a idade mais avançada, como o poeta e crítico Ferreira Gullar. Se vocês estão perplexos com o silêncio de grande parte da intelectualidade esquerdista diante da morte do grande poeta, é porque talvez desconheçam a guinada ideológica que ele deu nos últimos dez anos. Enojado com o mar de corrupção do governo petista, Gullar repensou velhos clichês da esquerda que havia defendido por décadas. Em uma entrevista memorável, Gullar afirmou sem medo de patrulhamento:

"Errado é achar, como Marx diz, que quem produz a riqueza é o trabalhador, e o capitalista só o explora. É bobagem. Sem a empresa, não existe riqueza. Um depende do outro. O empresário é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas. É um criador, um indivíduo que faz coisas novas. A visão de que só um lado produz riqueza e o outro só explora é radical, sectária, primária. A partir dessa miopia, tudo o mais deu errado para o campo socialista (...). O capitalismo não é uma teoria. Ele nasceu da necessidade real da sociedade e dos instintos do ser humano. Por isso ele é invencível. A força que torna o capitalismo invencível vem dessa origem natural indiscutível. Agora mesmo, enquanto falamos, há milhões de pessoas inventando maneiras novas de ganhar dinheiro. É óbvio que um governo central com seis burocratas dirigindo um país não vai ter a capacidade de ditar rumos a esses milhões de pessoas. Não tem cabimento."

Se Gullar tivesse passado algum tempo antes por sua transformação ideológica, provavelmente viraria um intelectual tão conservador como Horowitz. Digo isto porque, após estudar e analisar os males da ideologia esquerdista — e vê-la destruir o país em que vivemos —, inclino-me a dizer que a tendência do ex-comunista, cedo ou tarde, é se tornar anticomunista.

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